Mais da metade dos médicos de UTIs atuam como PJ
Mais da metade dos médicos de UTIs atuam como PJ

Pesquisa inédita revela que 54% dos médicos que atuam em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil trabalham como pessoa jurídica (PJ), sem vínculo empregatício formal com os hospitais. O levantamento, conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), ouviu 1.432 médicos intensivistas entre março e junho de 2026.

Perfil da força de trabalho nas UTIs

Dos profissionais entrevistados, 46% possuem vínculo formal (CLT ou estatutário), enquanto 54% atuam como PJ. A pesquisa também apontou que 38% dos médicos de UTI têm mais de um vínculo empregatício, e a média de horas trabalhadas por semana é de 44 horas. Apenas 22% dos intensivistas têm dedicação exclusiva a uma única instituição.

Segundo o presidente da AMIB, Dr. Carlos Eduardo de Oliveira, "a precarização do vínculo trabalhista é uma realidade que impacta diretamente a qualidade do cuidado ao paciente crítico. Médicos sem estabilidade tendem a ter maior rotatividade e menor engajamento com a equipe multiprofissional".

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Impactos na assistência

A pesquisa também avaliou a percepção dos médicos sobre a segurança do paciente. Entre os que atuam como PJ, 67% relataram sentir pressão para reduzir o tempo de internação na UTI, contra 48% dos celetistas. Além disso, 41% dos PJ afirmaram que já deixaram de prescrever exames ou procedimentos por restrições financeiras impostas pelo hospital, enquanto entre os CLT esse índice foi de 23%.

"A ausência de vínculo formal fragiliza a autonomia médica e pode comprometer a adesão a protocolos assistenciais", destacou a coordenadora da pesquisa, Dra. Ana Lúcia de Mattos, da FGV.

Remuneração e condições de trabalho

Em relação à remuneração, a média salarial dos médicos de UTI com vínculo CLT é de R$ 18.500 para uma jornada de 40 horas semanais. Já os profissionais PJ recebem, em média, R$ 22.000, mas sem benefícios como férias, 13º salário ou FGTS. A pesquisa também mostrou que 29% dos médicos PJ não têm direito a descanso semanal remunerado.

O levantamento ainda apontou que 73% dos intensivistas consideram a carga horária excessiva, e 58% já pensaram em abandonar a especialidade nos últimos dois anos, principalmente devido às más condições de trabalho.

Recomendações

A AMIB e a FGV recomendam que hospitais e gestores públicos priorizem a contratação formal de médicos intensivistas, com vínculos estáveis e planos de carreira. "Precisamos de políticas que valorizem o profissional e garantam a segurança do paciente", afirmou o Dr. Oliveira.

A pesquisa completa será apresentada durante o Congresso Brasileiro de Medicina Intensiva, em outubro de 2026, em São Paulo.

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