A Trachylepis atlantica, conhecida como mabuia-de-Noronha, é uma espécie de lagarto que vive exclusivamente no arquipélago de Fernando de Noronha, a cerca de 545 km da costa de Pernambuco. Pequeno e aparentemente onipresente, o animal circula entre pedras, trilhas e áreas urbanizadas, aproximando-se de pessoas e disputando alimento. Estudos recentes revelaram que sua reprodução é uma das mais lentas entre espécies aparentadas, estratégia moldada pelo ambiente insular, mas que pode se tornar um problema diante das rápidas transformações provocadas pela ocupação humana.
Origem e evolução
A mabuia-de-Noronha pertence a uma linhagem de origem africana. A explicação mais aceita para sua presença no Brasil é a dispersão transoceânica, possivelmente em massas flutuantes de vegetação carregadas por correntes marinhas. A jornada pode ter ocorrido em etapas, via paleo-ilhas hoje submersas. Uma vez estabelecidos no arquipélago, os lagartos permaneceram isolados por milhões de anos, evoluindo sob condições muito diferentes das do continente africano.
Ilhas como laboratórios naturais
Ilhas oceânicas são chamadas de laboratórios naturais da evolução. Por serem pequenas e isoladas, abrigam menos espécies, alterando interações ecológicas. Com menos predadores e competidores, as populações podem atingir densidades elevadas, favorecendo a chamada síndrome da ilha, que afeta comportamento, tamanho corporal, dieta, fisiologia e estratégias reprodutivas.
Reprodução lenta e investimento em poucos filhotes
Em ambientes continentais, a alta mortalidade por predadores favorece a produção de muitos filhotes. Em ilhas, com menor pressão de predação e alta densidade populacional, a competição por recursos é intensa. Investir mais energia em menos descendentes, que nascem maiores e mais competitivos, torna-se vantajoso. Foi exatamente esse padrão encontrado na mabuia-de-Noronha.
Os pesquisadores estudaram indivíduos coletados em campo, espécimes de coleções científicas e de zoológico. A reprodução ocorre em um período restrito do ano, na estação seca. Muitas fêmeas só se reproduzem a cada dois ou três anos, produzindo apenas dois ovos por vez, número baixo para lagartos desse grupo. Os ovos são grandes em relação ao corpo materno, indicando alto investimento em cada filhote.
Comparada a espécies do continente africano e de ilhas maiores, a combinação de poucos ovos volumosos e baixa frequência reprodutiva é incomum. Essa estratégia foi favorecida pela menor pressão de predadores, alta densidade populacional e sazonalidade de recursos em Noronha.
Ameaças atuais e futuro da espécie
Durante a maior parte de sua história, a mabuia-de-Noronha viveu em ambiente estável. Adaptações evolutivas refletem o passado e não preparam a espécie para mudanças rápidas. Com a ocupação humana, predadores introduzidos como garças, gatos, ratos e o lagarto Teiú passaram a ameaçá-la. A urbanização e o aumento da população humana também transformaram o ambiente.
Espécies com reprodução rápida se recuperam mais facilmente de quedas populacionais. Já a mabuia, que produz poucos filhotes em intervalos longos, tem menos margem para compensar perdas súbitas. A mesma estratégia que foi vantajosa no passado pode torná-la menos resiliente hoje. Em um dos casos registrados, uma fêmea grávida foi atropelada, ilustrando como pressões recentes afetam até populações aparentemente abundantes.
Isso não significa que a espécie esteja em risco imediato, mas compreender sua biologia é fundamental para orientar ações de conservação. A mabuia-de-Noronha exemplifica como ambientes isolados moldam profundamente a biologia das espécies, e como adaptações vantajosas no passado podem se tornar vulnerabilidades no presente.
Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil. Henrique B. Braz é pesquisador colaborador no Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan. Selma Maria Almeida-Santos é pesquisadora no mesmo laboratório. Serena Najara Migliore é postdoctoral associate do Instituto Butantan.



