Uma idosa de 78 anos, moradora de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, está há três anos esperando uma cirurgia de hérnia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Após anos de sofrimento e consultas, a família descobriu que seu nome nunca foi incluído na fila do Sisreg, o sistema de regulação do município. Enquanto isso, o tempo médio de espera para esse tipo de consulta mais que dobrou na capital fluminense.
História de dor e abandono
A dona de casa Maria Cristina da Silva Tito convive com dores intensas que a impedem de realizar atividades básicas. Levantar do sofá, ir ao banheiro ou sair de casa sozinha são tarefas impossíveis. “Eu não posso pegar um ônibus, não posso pegar uma van. Não tem como subir na van. Não tem como subir no ônibus. É dificuldade até sentada, para deitar é pior. É difícil dormir, só durmo se tomar um remédio de dor”, relata Maria.
Ela chegou a passar por uma cirurgia de emergência, mas as hérnias voltaram a se desenvolver, agravando seu quadro de saúde. A filha Thainá, que cuida da mãe, desabafa: “A gente que é filha vendo a situação dela, chegar todo dia do trabalho e ver sua mãe ali sentada, ouvir que não aguenta mais. A gente segura, todo mundo pensa que está bem, mas não está. É preocupante, eu não trabalho bem porque fico preocupado com ela”.
Erro no cadastro e anos perdidos
Em 2014, a família procurou a Clínica da Família Antônio Gonçalves Vila Sobrinho, em Campo Grande, para tentar agendar a cirurgia. A equipe afirmou que Maria seria incluída na fila do Sisreg. No entanto, cinco anos depois, em 2019, ao retornar à unidade, a paciente descobriu que nunca havia sido registrada no sistema. “Eu liguei para ela. Quando liguei, ela estava chorando muito. ‘Thainá, passaram cinco anos esperando a operação, e você não sabe da maior: meu nome nem está no Sisreg, não está em lugar nenhum. Eles nem sabiam que eu precisava da operação’”, conta a filha.
Passados mais três anos, a situação permanece inalterada. Segundo a família, Maria ainda não foi inserida na fila para a cirurgia. Os dados do Portal da Transparência da Prefeitura do Rio confirmam que a espera é longa e crescente: em 2024, o tempo médio para consulta com cirurgião especialista em hérnia era de 78 dias; em 2025, subiu para 141 dias; e entre janeiro e julho de 2026, a média chegou a aproximadamente 164 dias.
Impacto na saúde e no cotidiano
Enquanto aguarda atendimento, o estado de saúde de Maria piora. Diariamente, ela toma uma grande quantidade de analgésicos e, em dias alternados, outros medicamentos para conseguir se locomover dentro de casa. “Eu procuro ficar tranquila porque não adianta ficar nervosa, mas tem hora que você quer sair correndo, porque você é abandonada, sabe? Você é abandonado pela saúde”, desabafa a idosa.
A família denuncia que a falta de assistência vai além do erro administrativo. “A gente confiou no sistema, e ele falhou. Minha mãe está sofrendo há anos por uma cirurgia que deveria ser garantida”, afirma Thainá.
Resposta da Secretaria Municipal de Saúde
A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro informou que dona Maria precisa perder peso para realizar a cirurgia, e que teria sido notificada sobre isso em 2023. No entanto, a paciente nega ter recebido essa orientação. Após a reportagem, a prefeitura encaminhou um agente comunitário de saúde na última sexta-feira (24), agendou exames e um tratamento no centro especializado em obesidade e metabolismo da Zona Oeste. Na segunda-feira (27), uma enfermeira visitou Maria, e na terça-feira (28), um médico também esteve em sua residência para dar continuidade ao tratamento.
Apesar da ação após a repercussão, a filha Thainá demonstra insatisfação: “Só agiram porque a imprensa se envolveu. Antes disso, ninguém fez nada. Minha mãe continuou abandonada”.
O drama de muitos no Rio
O caso de Maria Cristina não é isolado. O aumento do tempo de espera para consultas especializadas reflete a sobrecarga do sistema de saúde municipal. Em 2025, a espera média já havia quase dobrado em relação a 2024, e a tendência de alta segue em 2026. De acordo com especialistas, o problema está na gestão de filas e na falta de vagas para cirurgias eletivas, agravada pela pandemia e pela demanda reprimida.
Enquanto o poder público tenta resolver a situação, a idosa segue em casa, dependente de remédios e da ajuda da filha para as tarefas mais simples. A certeza de ter sido ignorada por anos deixa marcas profundas. “É uma sensação de abandono que não se cura só com cirurgia”, conclui Thainá.



