A fumaça dos incêndios florestais que devastam a Europa neste verão pode causar impactos à saúde mais severos do que se imaginava, segundo estudos científicos recentes. A exposição repetida, mesmo a quantidades moderadas, aumenta o risco de acidente vascular cerebral (AVC) entre idosos, e a exposição de longo prazo contribui para milhares de mortes anuais, de acordo com pesquisas publicadas em 2025 e 2026.
Estudos revelam riscos graves
Uma pesquisa divulgada em janeiro no European Heart Journal constatou que a exposição repetida à fumaça de incêndios florestais, mesmo em níveis moderados, eleva o risco de AVC em idosos. Outro estudo, publicado em fevereiro na Science Advances, concluiu que a exposição de longo prazo à fumaça contribuiu, em média, para 24.100 mortes por ano nos Estados Unidos entre 2006 e 2020.
"O corpo inteiro é afetado", afirmou Yang Liu, professor de Saúde Ambiental da Universidade Emory, em Atlanta. "A fumaça de incêndios florestais causa estresse oxidativo no organismo e exacerba ou acelera o desenvolvimento de doenças." Liu e seus colegas lideraram o estudo do European Heart Journal.
O que torna a fumaça tão tóxica
A fumaça de incêndios florestais contém uma mistura de poluentes atmosféricos perigosos, mas um dos componentes mais agressivos é o material particulado fino, conhecido como PM2,5 (partículas com até 2,5 micrômetros de diâmetro). O PM2,5 é composto por fuligem, poeira e outras substâncias que atraem metais tóxicos e compostos orgânicos. Quando inaladas, essas partículas podem penetrar nos pulmões e na corrente sanguínea, provocando inflamação e danos a diversos órgãos.
A exposição prolongada ao PM2,5 tem sido associada a doenças pulmonares, como asma, além de doenças cardíacas, diabetes, demência e câncer. A fumaça é particularmente perigosa para gestantes, podendo aumentar o risco de partos prematuros e de baixo peso ao nascer.
Toxidade varia conforme a localização
"Isso realmente depende da localização do incêndio. Pode variar até mesmo de quarteirão para quarteirão. A fumaça pode ser composta por diferentes elementos", afirmou Mary Johnson, pesquisadora principal do Departamento de Saúde Ambiental da Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan. Johnson liderou uma equipe internacional que estudou substâncias tóxicas em incêndios florestais, identificando mercúrio e cádmio, metais pesados encontrados naturalmente em plantas e solos, além de compostos cancerígenos e PFAS (substâncias sintéticas associadas a câncer e distúrbios metabólicos).
Os pesquisadores sugerem que estudos futuros se concentrem no desenvolvimento de tratamentos para grupos vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
Fumaça se torna mais tóxica com o tempo
A fumaça de incêndios florestais se torna mais perigosa com o tempo, passando por reações químicas que aumentam sua capacidade de causar danos às células. Pesquisadores na Grécia descobriram que a fumaça pode se tornar até quatro vezes mais tóxica nos dias seguintes a um incêndio. Ela também pode viajar rapidamente por longas distâncias, espalhando-se para áreas a milhares de quilômetros da origem do fogo.
"Se não houver chuva para lavar essas partículas, elas podem permanecer na atmosfera por dez dias ou até mais. Elas podem dar a volta em todo o hemisfério e retornar ao ponto de partida nesse intervalo", afirmou Nikolaos Mihalopoulos, diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Observatório Nacional de Atenas.
Durante os incêndios florestais no Canadá em 2023, cerca de 6.000 focos queimaram 15 milhões de hectares, provocando a disseminação de uma "poluição de PM2,5 de longo alcance" por toda a América do Norte, alcançando inclusive a Europa e a Ásia. Em um artigo publicado em setembro de 2025, pesquisadores estimaram que cerca de 5.400 mortes na América do Norte e aproximadamente 64.300 mortes associadas a doenças crônicas na América do Norte e na Europa podem estar relacionadas à exposição ao PM2,5 dos incêndios canadenses de 2023.
Apesar disso, outras fontes de poluição do ar, como emissões de veículos, atividades industriais e queima de combustíveis para cozinhar, continuam a causar mais problemas de saúde no total, uma vez que as pessoas estão expostas a elas diariamente. "Quando analisamos o que realmente impulsiona a mortalidade da população como um todo, ainda são todas essas outras fontes [de poluição do ar] as principais responsáveis por tantas mortes", afirmou Cathryn Tonne, epidemiologista ambiental do Instituto de Saúde Global de Barcelona.
Como se proteger da fumaça
A fumaça de incêndios florestais é particularmente tóxica, sobretudo para quem vive perto de áreas propensas a queimadas. "Quanto mais você conseguir minimizar a exposição, melhor", afirmou Johnson, que recomenda permanecer em ambientes fechados durante e logo após os incêndios, usar filtros em sistemas de aquecimento e ar-condicionado, manter máscaras do tipo N95 disponíveis e garantir que pessoas vulneráveis tenham estoques de emergência de medicamentos e inaladores facilmente acessíveis.
Antes das temporadas de incêndios, as pessoas devem limpar suas propriedades de materiais inflamáveis e organizar grupos de monitoramento comunitário para identificar sinais precoces de fogo e ajudar a impedir que pequenos focos se transformem em incêndios catastróficos.



