A família de Théo Henrique da Silva, de Sorocaba (SP), registrou um boletim de ocorrência contra a Santa Casa de Misericórdia por violência obstétrica e negligência médica. O parto ocorreu na segunda-feira (20), quando, segundo os pais, o recém-nascido foi submetido a um parto normal forçado. Théo perdeu os sinais vitais, sofreu asfixia grave e precisou ser reanimado. Ele segue internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal, sem previsão de alta.
A Polícia Civil informou que o caso foi encaminhado ao 2º Distrito Policial da cidade, que já solicitou informações ao hospital e realiza diligências para esclarecer os fatos.
Versão da família
De acordo com a denúncia, a mãe do bebê teve um pré-natal sem complicações. Ela deu entrada na maternidade com seis centímetros de dilatação e, sentindo-se fisicamente exausta, pediu diversas vezes a realização de uma cesariana, o que foi negado pela equipe. O pai de Théo, Sidnei Gonçalves da Silva, alega que os profissionais fizeram manobras incoerentes para forçar o parto normal. Ele relata que a esposa foi colocada sentada em um banco baixo, enquanto segurava um lençol e participava de uma espécie de "cabo de guerra" com uma enfermeira na outra extremidade. Segundo o pai, a enfermeira obstetra afirmava que os batimentos cardíacos da criança estavam normais.
O boletim de ocorrência também descreve que, quando a cabeça do bebê ficou visível, a mãe foi orientada a caminhar sozinha até outra sala para trocar de maca. Sidnei afirma que a médica presente não examinou a esposa e permaneceu à distância. O pai ainda denunciou que o bebê foi puxado pela cabeça de forma brusca com um bisturi. Os pais dizem que a criança ficou presa por cerca de cinco minutos sem conseguir respirar.
O que a Santa Casa disse
Procurada, a Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba informou, em nota, que "todas as condutas adotadas pelas equipes médica e assistencial foram definidas a partir da avaliação clínica apresentada no momento do atendimento, observando-se a literatura médica, os protocolos institucionais e as boas práticas". A instituição ressaltou que, em respeito ao sigilo e à legislação de proteção de dados, não pode divulgar publicamente informações clínicas individualizadas.
Sobre a queixa de omissão de laudos feita pela família, o hospital disse que o prontuário da mãe foi disponibilizado e que, até o momento, não havia registro de solicitação formal para o prontuário do recém-nascido. Ainda segundo a instituição, o documento será fornecido no prazo razoável assim que for requerido.
Prontuários revelam complicações e contradições
Os prontuários médicos da mãe e do recém-nascido, aos quais a reportagem teve acesso, confirmam que o nascimento foi marcado por severas complicações, mas apresentam uma versão diferente da família para os procedimentos adotados. Os registros indicam que a mãe expressou repetidamente o desejo de fazer uma cesariana devido às dores e à exaustão, mas a equipe optou por manter a indução do parto normal, anotando que orientou o casal sobre os riscos de uma cirurgia.
Durante o processo, anotações de enfermagem apontaram a presença de mecônio — fezes do bebê no líquido amniótico —, um indicador de estresse e sofrimento fetal, além da dificuldade de desprendimento da criança. Na versão registrada pela enfermeira obstetra, a paciente foi transferida da banqueta para a mesa quando o bebê começou a "coroar". O documento descreve que a cabeça ficou exposta com dificuldade de saída e que houve complicação para escutar os batimentos fetais nos minutos finais.
Ao contrário do relato do pai no boletim de ocorrência, que menciona o uso de bisturi para puxar a criança, a equipe anotou que preparou anestesia para fazer um corte na região íntima (episiotomia), mas alega não ter realizado o corte, registrando apenas uma laceração natural que precisou de sutura. O relatório também aponta o diagnóstico primário de "asfixia ao nascer não identificada", ou seja, o bebê sofreu falta de oxigênio ou de fluxo sanguíneo adequado logo antes, durante ou imediatamente após o parto, sem que a equipe conseguisse descobrir o motivo exato.
Estado grave na UTI
Os relatórios neonatais mostram que Théo nasceu em parada respiratória, roxo e com os músculos completamente flácidos no primeiro minuto de vida. A equipe precisou realizar manobras imediatas de reanimação e intubação na sala de parto. Na UTI, o bebê foi diagnosticado com lesão cerebral grave pela falta de oxigênio. Ele foi submetido a um protocolo de hipotermia — com o corpo resfriado por 72 horas — para conter danos neurológicos. Os prontuários apontam que ele passou a apresentar crises convulsivas, necessitando de forte sedação.
Sobre a queixa da família de que a cabeça do bebê tinha "aspecto amassado", a documentação médica descreve um inchaço fluido provocado pela intensa pressão exercida no canal de parto.
Segunda denúncia na mesma maternidade
Outra família de Sorocaba relatou ter enfrentado problemas no atendimento da mesma maternidade. Bruno Leandro da Silva afirma que o filho, Matteo Ravi, nasceu com asfixia grave no dia 10 de maio. Segundo Bruno, a esposa teve uma gestação saudável, mas foi mandada de volta para casa após buscar atendimento na Santa Casa com dores.
"No dia 10, na parte da manhã, ela passou mal, foi para o hospital, fizeram toque, quando foi na parte da tarde, ela voltou embora e teve sangramento. Voltou na Santa Casa, fizeram toque de novo, e nada (de realizar o parto). Aí, quando foi na parte da tardezinha, ela não aguentou mais. Chamei a unidade de remoção da Samu e ela teve o parto", disse Bruno. Ele afirma que a criança nasceu em parada cardíaca, foi intubada e levada à UTI, enquanto a esposa ficou na mesa de parto sem informações. Até este sábado (1º), Matteo permanecia internado no hospital. A família também registrou um boletim de ocorrência por negligência.
Até a última atualização desta reportagem, a Santa Casa não havia se posicionado especificamente sobre o caso do bebê Matteo Ravi. A Polícia Civil segue investigando os dois episódios.



