Miguel do Nascimento, de 16 anos, pratica basquete desde os 12, mas a partir de junho de 2025 sua performance mudou drasticamente. Os saltos ficaram mais altos e recuperar a bola após um arremesso errado tornou-se mais fácil. O motivo: 10 centímetros a mais de altura em poucos meses, o chamado "estirão de crescimento". "Senti muita diferença na minha corrida, no meu pulo, a altura me ajudou muito na marcação. Existe muita pressão, muitas pessoas falavam que jogador de basquete precisa ser alto, embora não seja uma regra", conta o jovem atleta do Sub-16 do Instituto para o Desenvolvimento do Esporte e da Cultura (Idec), no Rio de Janeiro, que hoje mede 1,79 m.
O estirão de crescimento: o que é e como ocorre?
O estirão é caracterizado por um aumento de mais de 7 cm por ano. O pediatra e endocrinologista Luiz Claudio Castro, coordenador do departamento de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que 100% dos meninos passam por essa aceleração, mas cerca de 30% das meninas não. "Não por problema de saúde, é fisiológico. Essas meninas crescem por mais tempo, compensando a falta do estirão", diz. O processo é desencadeado pela puberdade e ação de dois sistemas hormonais principais.
Hormônios envolvidos no crescimento acelerado
Inicialmente, o hipotálamo libera o hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), que estimula a hipófise a produzir LH e FSH. Esses atuam nos ovários e testículos, aumentando a produção de estrogênio e testosterona. João Felipe Franca, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) do Rio de Janeiro, destaca: "Quem comanda o estirão é o estrogênio. Nos meninos, vem da conversão da testosterona em estradiol. Homens raros que não produzem ou respondem ao estrogênio não fazem o estirão e continuam crescendo indefinidamente." O estradiol em baixa dose estimula o crescimento, mas em alta dose e prolongada fecha as cartilagens. O segundo sistema envolve o hormônio do crescimento (GH) e o IGF-1, produzido no fígado.
Diferenças entre meninos e meninas
Nas meninas, o processo começa mais cedo, entre 8 e 12 anos, geralmente antes da primeira menstruação. Nos meninos, a puberdade inicia entre 9 e 14 anos, e o crescimento pode ir até os 18-21 anos. A endocrinologista Maira Brandão, do Grupo Santa Joana, acrescenta: "Entrar na puberdade mais cedo pode dar vantagem esportiva inicial, mas essas crianças tendem a crescer menos no final. O atleta que demora mais pode ficar mais alto. A atividade física intensa bloqueia um pouco a produção hormonal."
Fatores genéticos e previsão de altura
A genética responde por cerca de 80% do padrão de crescimento e estatura final, segundo Castro. É possível estimar a altura final com base na altura dos pais, histórico familiar e idade óssea. Franca menciona um cálculo simples: média da altura dos pais mais 6,5 cm para menino e menos 6,5 cm para menina, com erro de até 8 cm. Métodos mais precisos incluem radiografia da mão e punho.
Impacto no desempenho esportivo
O estirão traz vantagens em esportes como futebol, rugby e natação de velocidade, mas pode atrapalhar em ginástica e saltos ornamentais. Para meninas, costuma ser uma desvantagem, explicando o abandono esportivo na adolescência. Franca observa: "Os que maturam tarde têm chance desproporcionalmente maior de chegar ao profissional. É o 'efeito underdog'. Sem poder resolver no físico, desenvolvem técnica, leitura de jogo e resiliência." Arthur Araújo, de 16 anos, colega de equipe de Miguel, cresceu aceleradamente e hoje tem 1,89 m. "Ajudou no meu estilo de jogo. Jogava de pivô e ala-pivô, posições que precisam de altura, e sempre sofria contra adversários mais altos", relata.
Riscos de lesões e cuidados necessários
Durante o estirão, há maior risco de lesões devido ao crescimento ósseo rápido, sem que músculos e ligamentos acompanhem. Maira alerta: "A cartilagem não está fechada e o esforço pode ser excessivo. Lesões musculares ocorrem porque o corpo cresce rápido demais para a musculatura. A mecânica do movimento fica prejudicada, causando desengonço." Para prevenir, especialistas recomendam fortalecimento, respeitar sinais de dor, ajustar volume e intensidade dos treinos, priorizar alongamento e mobilidade, garantir descanso de 8 a 10 horas de sono, e alimentação adequada.



