SP planeja vender ícones do centro, como Cine Marrocos e Hotel Esplanada
Venda de ícones do centro de SP: Cine Marrocos e Esplanada

O governo do Estado de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas, prepara um amplo programa de venda e retrofit de ícones arquitetônicos do centro da capital paulista. A lista inclui o Cine Marrocos, o Hotel Esplanada, o Banco de São Paulo e outros edifícios históricos, atualmente ocupados por secretarias estaduais, que serão leiloados após a transferência das pastas para a futura sede do governo nos Campos Elíseos.

Lista inclui desde neoclássico do século 19 a modernistas

Os imóveis listados abrangem diferentes épocas e estilos, desde uma obra neoclássica de Ramos de Azevedo de 1894 — que continuará sob poder público, mas com novo uso — até prédios modernistas da segunda metade do século 20. O pacote contempla ainda o edifício que foi o Copacabana Palace paulista (Hotel Esplanada), o cinema "mais luxuoso da América Latina" (Cine Marrocos) e duas das principais referências do art déco na cidade (Banco de São Paulo e Edifício Saldanha Marinho).

Segundo o secretário estadual de Projetos Estratégicos, Guilherme Afif Domingos, a intenção é leiloar os imóveis sem obrigatoriedade contratual de uso, mas com o objetivo de transformá-los em moradia, hotelaria ou espaços de lazer e cultura. "Assim, estruturas antes restritas ao horário comercial poderão ganhar nova vida", afirma. Ainda não há estimativas de valores para cada venda.

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Especialistas alertam para riscos de gentrificação

Especialistas, no entanto, apontam que as novas ocupações precisam preservar a memória e a identidade original, indo além da simples conservação do bem tombado. O professor da Universidade de São Paulo (USP) Leandro Silva Medrano alerta que experiências similares fracassaram no exterior nas décadas de 1980 e 1990, como nos bairros Ciutat Vella, em Barcelona, e Temple Bar, em Dublin, que sofreram gentrificação e especulação imobiliária após revitalizações. Medrano cita a recuperação do centro histórico de Bolonha, na Itália, como referência positiva: "Não houve expulsão dos moradores locais, mas medidas para assegurar a permanência e o pertencimento deles".

Banco de São Paulo: art déco de 1938 deve ser vendido ainda este ano

O edifício do antigo Banco de São Paulo, atualmente ocupado pela Secretaria de Esportes, deve ser uma das primeiras vendas, prevista para este ano. Com 18 pavimentos e 13 mil m² de área construída, é considerado pelo Conselho de Patrimônio do Estado (Condephaat) um dos exemplares mais representativos do art déco no Brasil. Projetado pelo arquiteto Álvaro de Arruda Botelho em 1938, o edifício exibe simetria, janelas geminadas, formas geométricas e uso de materiais nobres como mármore e bronze. O imóvel foi reconhecido como patrimônio estadual em 2003. Afif revela que há interesse em instalar um bar nos antigos cofres do banco, inspirado no Farol Santander.

Hotel Esplanada e Cine Marrocos vão juntos em primeiro lote

O primeiro lote de vendas incluirá o Hotel Esplanada, o Cine Marrocos e um galpão vizinho, arrematados em uma única compra. Inaugurado em 1923, mesmo ano do Copacabana Palace, o Esplanada foi projetado pelo francês Joseph Gire e foi um dos hotéis mais luxuosos da capital. Com oito andares e 250 quartos, era conhecido como "hotel dos artistas" e ligado ao Theatro Municipal por um túnel subterrâneo. Fechado em 1957, depois serviu como apart-hotel e escritório do Grupo Votorantim. O Estado o comprou por R$ 32,5 milhões em 2012 e agora espera que o novo proprietário retome a atividade hoteleira.

O Cine Marrocos, inaugurado em 1951 com o slogan de "cinema mais luxuoso da América Latina", tem 12 andares e colunas na fachada. A decoração interna inspirada nas "Mil e Uma Noites" incluía pinturas, mosaicos, tapetes e uma fonte luminosa. Após décadas de declínio, exibiu pornochanchadas até fechar em 1994. Invadido por movimentos de moradia em 2013, foi reintegrado em 2016 e lacrado com tijolos. Atualmente pertence à Prefeitura, mas há processo administrativo para transferi-lo ao Estado em troca de outro terreno. O governo Tarcísio avalia que a área superior tem potencial para moradia e os primeiros andares para atividades culturais. O galpão vizinho, antiga loja Kalunga e atualmente estacionamento da PM, é o único que pode ser demolido, segundo a gestão.

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Caetano de Campos: único que não será vendido, vai abrigar escola de música

O edifício da Escola Normal Caetano de Campos, na Praça da República, é o único da lista que não será vendido. Projetado por Ramos de Azevedo em 1894, o palácio neoclássico em formato de "E" terá a instalação da Escola de Música Tom Jobim. "Não queremos que ele fique fora da educação", afirma Afif. O prédio, que já abrigou a Faculdade de Filosofia da USP e sediou a Secretaria da Educação, quase foi demolido nos anos 1970 para a construção do Metrô, o que garantiu seu tombamento em 1976.

Edifício Saldanha Marinho e Cidade 1 e 2: próximos na fila

A sede da Secretaria de Segurança Pública, Edifício Saldanha Marinho, projetado por Elisiário Bahiana em 1933, também deve ser vendida, mas não em curto prazo. É um dos primeiros arranha-céus da cidade e um dos mais expressivos exemplos do art déco, tombado em 1986. Afif sugere que a proximidade com a Faculdade de Direito da USP o torna estratégico para moradia ou hotel-residência. Já os Edifícios Cidade 1 e 2, modernistas sem tombamento, na Rua Boa Vista, devem ser leiloados a partir de 2027. Afif admite conversas preliminares para transferi-los ao Município, já que estão perto da sede da Prefeitura.