O fenômeno El Niño está reconfigurando o panorama da dengue no Brasil. Com temperaturas mais altas e chuvas irregulares, as condições se tornaram propícias para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, resultando no maior surto já registrado no país.
O impacto do El Niño no clima brasileiro
O El Niño aquece as águas do Pacífico equatorial, alterando os padrões de vento e precipitação em todo o mundo. No Brasil, o fenômeno provoca ondas de calor e chuvas intensas em algumas regiões, enquanto outras enfrentam secas prolongadas. Essas mudanças climáticas criam um ambiente ideal para a reprodução do vetor da dengue.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño de 2023-2024 foi um dos mais fortes das últimas décadas, elevando a temperatura média em até 2°C em áreas do Sudeste e Centro-Oeste. O aumento da temperatura acelera o ciclo de vida do mosquito e reduz o período de incubação do vírus.
Aumento recorde de casos de dengue
O Brasil registrou mais de 6 milhões de casos prováveis de dengue em 2024, o maior número da história, conforme dados do Ministério da Saúde. Isso representa um crescimento de 400% em relação a 2023, quando foram contabilizados cerca de 1,5 milhão de casos.
“O El Niño intensificou as condições ideais para a proliferação do Aedes aegypti, combinando calor e umidade de forma prolongada”, afirmou a secretária de Vigilância em Saúde, Ethel Maciel. “Estamos diante de um cenário sem precedentes, que exige ações coordenadas entre governo e população.”
As regiões mais afetadas foram o Sudeste, com destaque para São Paulo e Minas Gerais, e o Centro-Oeste, onde o Distrito Federal registrou taxa de incidência superior a 2.000 casos por 100 mil habitantes.
Medidas de prevenção e controle
Diante do agravamento da situação, o governo federal lançou um plano de contingência que inclui a distribuição de inseticidas, a ampliação da testagem e a mobilização de agentes de saúde. Além disso, campanhas de conscientização reforçam a necessidade de eliminar criadouros do mosquito.
Especialistas alertam que o combate à dengue deve ser contínuo, especialmente em anos de El Niño. “A prevenção precisa ser intensificada antes do período de maior transmissão, que coincide com o verão”, explica o infectologista Marcos Boulos, da Universidade de São Paulo.
As mudanças climáticas tornam o cenário ainda mais desafiador. Estudos indicam que eventos climáticos extremos, como El Niño, devem se tornar mais frequentes e intensos, exigindo adaptação do sistema de saúde.
Perspectivas para o futuro
O Brasil precisa investir em infraestrutura de saneamento e vigilância epidemiológica para enfrentar os impactos das alterações climáticas na saúde pública. A vacinação contra a dengue, embora ainda limitada, também é uma ferramenta importante. Até o momento, a vacina Qdenga está disponível apenas para crianças e adolescentes em regiões prioritárias.
A combinação de El Niño, desmatamento e urbanização acelerada cria um ciclo vicioso que favorece a dispersão do Aedes aegypti. Para reverter essa tendência, são necessárias políticas integradas de meio ambiente e saúde.
“Estamos vivendo uma nova realidade climática. O El Niño não é mais um fenômeno esporádico, mas parte de um padrão que exige respostas permanentes”, concluiu Ethel Maciel.



