Dez sinais de alerta: quando o comportamento do pet esconde dor
Dez sinais de alerta: quando o comportamento do pet esconde dor

Segunda começa meu estágio na Universidade de Lincoln, para acompanhar casos que ligam dor e comportamento. Escrevo este texto diretamente de Lincoln, na Inglaterra, onde passarei (a partir da próxima segunda) três semanas acompanhando o trabalho de diversos profissionais da medicina veterinária comportamental, na Universidade de Lincoln. Dentre eles os mais famosos: Daniel Mills e Helen Zulch.

Como parte da preparação para esse estágio, recebi uma série de materiais para estudo. Entre eles, um artigo publicado pelos dois autores em 2023 na revista In Practice chamou especialmente minha atenção. O texto aborda um tema fundamental e o que vim em busca: quantos problemas aparentemente comportamentais de cães e gatos podem, na verdade, ser a manifestação de uma condição médica ainda não diagnosticada.

Nos meus atendimentos, é comum ouvir relatos como "meu cachorro ficou agressivo do nada", "meu gato começou a fazer xixi fora da caixa" ou "ele não quer mais passear". Muitas vezes, a primeira explicação buscada é comportamental. No entanto, dor, desconforto e diversas doenças podem provocar exatamente essas mudanças.

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Por isso, gostaria de compartilhar os dez sinais de alerta -- ou "red flags" -- propostos por Mills e Zulch. Se seu pet apresentar um ou mais desses sinais, uma avaliação veterinária mais aprofundada pode ser necessária.

1. O problema surgiu de repente

Mudanças comportamentais repentinas merecem atenção. Um cão que sempre foi sociável e passa a evitar pessoas, ou um animal que desenvolve medo intenso de fogos de artifício sem nunca ter demonstrado esse receio antes, pode estar manifestando algum desconforto físico ou alteração clínica.

2. Existem vários sinais aparentemente desconectados

Às vezes, comportamentos que parecem não ter relação entre si possuem uma única causa. Um cão que não gosta mais de passear, evita ser manipulado em determinada região do corpo e passa a proteger o local onde está deitado pode estar sentindo dor.

3. O problema piorou muito rapidamente

Quando a evolução é acelerada, a possibilidade de uma causa médica aumenta. Um gato que passa de usuário exemplar da caixa de areia para urinar por toda a casa em poucos dias, por exemplo, pode estar associando a eliminação à dor.

4. O animal apresenta posturas incomuns

Mudanças na postura durante atividades rotineiras podem indicar desconforto físico. Gatos que alteram a forma de urinar ou defecar, por exemplo, podem estar tentando evitar movimentos dolorosos relacionados a problemas ortopédicos.

5. O medo ou a aversão se generalizam excessivamente

Um evento desagradável pode fazer o animal evitar não apenas a situação original, mas também diversos estímulos relacionados. Quando essa generalização parece exagerada, vale investigar se existe dor ou desconforto amplificando a resposta emocional.

6. O comportamento oscila muito

Alguns tutores descrevem seus animais como tendo uma personalidade "Jekyll e Hyde": em um momento estão amigáveis e tranquilos; em outro, parecem irritados, reativos ou retraídos. Essas oscilações podem acompanhar flutuações da dor crônica.

7. Existe relação entre o comportamento e o exercício

Nem sempre a dor aparece durante a atividade. Alguns cães brincam e passeiam normalmente, mas demonstram irritabilidade, sensibilidade ou agressividade horas depois ou no dia seguinte. Observar esse padrão pode fornecer pistas valiosas. Vale colocar aqui comportamentos após a creche também.

8. O problema surgiu junto com uma doença ou tratamento

Mudanças comportamentais que aparecem simultaneamente a uma enfermidade ou ao início de uma medicação nunca devem ser ignoradas. Algumas doenças alteram diretamente a capacidade do animal de lidar com o estresse e determinadas medicações também podem influenciar emoções e comportamento.

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9. A idade de início é incomum

Todo problema comportamental possui faixas etárias mais comuns para surgir. Quando um comportamento aparece muito fora do esperado (especialmente em animais idosos) uma investigação médica torna-se ainda mais importante. Mills e Zulch destacam que sinais frequentemente atribuídos ao envelhecimento ou à síndrome da disfunção cognitiva, como desorientação, alterações do sono, perda de hábitos de higiene, mudanças sociais e aumento da ansiedade, também podem estar associados à dor crônica.

10. O tratamento comportamental não funciona como deveria

Quando um programa de modificação comportamental ou um adestramento bem estruturado produz poucos resultados ou melhora apenas parcialmente, vale questionar se existe algum fator médico limitando o progresso. Isso é particularmente importante quando há uma melhora inicial seguida de estagnação. Em muitos casos, a dor impede que o animal avance além de determinado ponto, mesmo com treinamento adequado.

O que os tutores podem aprender com isso?

Uma das mensagens mais importantes do artigo é que os tutores geralmente conhecem seus animais melhor do que ninguém. Quando alguém diz que o comportamento está "estranho", "diferente" ou "não parece ser ele mesmo", essa percepção merece ser levada a sério. Nem toda mudança comportamental é causada por uma doença. Mas toda mudança importante merece ser investigada.

Ao longo dos anos, talvez a maior lição que aprendi trabalhando com comportamento animal seja justamente esta: comportamento não é apenas uma questão de treinamento. Muitas vezes, é uma forma de comunicação. E, em alguns casos, pode ser o primeiro pedido de ajuda que um animal consegue fazer.

Este texto foi inspirado no artigo "Veterinary Assessment of Behaviour Cases in Cats and Dogs", publicado por Daniel Mills e Helen Zulch na revista In Practice em 2023, leitura recomendada pelos autores como parte das atividades preparatórias para o estágio que atualmente realizo em Lincoln, Reino Unido.