Pesquisas sobre o efeito de canetas emagrecedoras no câncer, iniciadas há cerca de cinco anos, apontam para um benefício potencial, mas ainda requerem confirmação com estudos mais robustos. Os análogos de GLP-1 representam uma pista inovadora na busca por novos tratamentos contra a doença, conforme discutido no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO).
Estudos retrospectivos e a necessidade de ensaios clínicos
O oncologista clínico brasileiro Paulo Henrique Costa, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e atuante nos hospitais da Rede Mater Dei, explica que os estudos disponíveis são retrospectivos, o que limita a representatividade estatística. “Não é um ensaio clínico randomizado. Nesse tipo de estudo, você divide os participantes em grupos: um recebe o tratamento, e outro, não, o que permite obter uma evidência muito mais sólida, quase irrefutável”, afirma. Ele reitera a necessidade de outras pesquisas para confirmar a ação das moléculas em certos cânceres, especialmente diante do mercado paralelo de canetas emagrecedoras obtidas sem receita ou recomendação médica.
Controle da obesidade como fator de prevenção
Segundo o oncologista, controlar os fatores de risco ainda é a melhor maneira de prevenir o câncer e outras doenças. Isso inclui dieta adequada e controle da obesidade, “sem sair usando esse medicamento de forma indiscriminada”. “À medida que se reduz a obesidade, que é um fator de risco para o câncer, há benefício na redução da incidência da doença e em seu controle”, explica. O uso das canetas emagrecedoras tornou esse benefício “ainda mais evidente”. A taxa de incidência de câncer parece ser menor nos pacientes que utilizam a medicação. “No caso de pacientes que já têm câncer e fazem o uso, o desfecho oncológico parece melhor: a doença progride menos e há menor risco de aparecimento de metástases. Isso leva a pensar que, ao controlar o fator de risco obesidade, que é central, há avanço no controle oncológico”, acrescenta.
Resultados do estudo com mais de 12 mil pacientes
O estudo apresentado no evento analisou dados de mais de 12 mil pacientes de várias regiões do mundo, com diferentes tipos de câncer em estágios iniciais a intermediários. A pesquisa comparou pacientes tratados com análogos de GLP-1 (liraglutida, pramlintida, dulaglutida, tirzepatida, lixisenatida ou semaglutida) a outros que receberam outros tipos de medicação antidiabética, como os inibidores de DPP-4. Os resultados mostraram redução significativa na progressão de metástases, especialmente em quatro tipos de câncer: pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado. Em outros tumores, como próstata, pâncreas e rim, houve tendência de benefício, mas sem significância estatística.
Efeitos diretos e modulação imunológica
Estudos preliminares apresentados na ASCO também indicam que, além de controlar a glicose e o peso, os agonistas de GLP-1 podem ajudar a modular o sistema imunológico e a inflamação, além de melhorar a taxa de sobrevida global. “Existem novas evidências de que pode haver um efeito direto”, diz o oncologista. “Nas células tumorais existem vários receptores e proteínas na membrana celular, e parece que essas classes de drogas também exercem alguma ação direta sobre elas. Esse efeito ainda está sendo estudado. Vale lembrar que não é uma evidência definitiva, ela ainda é indireta, mas também pode contribuir para esse controle.” O câncer se desenvolve em um contexto inflamatório, que leva a erros de replicação das células. A ação dos análogos de GLP-1 poderia contribuir para reduzir esse risco. “O paciente com câncer, ou com maior risco para a doença, desenvolve o tumor em um ambiente de inflamação. Essas moléculas também parecem atuar na redução desse grau de inflamação propício ao câncer”, reitera.
Destaques da ASCO e o futuro da oncologia
O especialista lembra que a ASCO é uma oportunidade para acompanhar a evolução dos tratamentos e grandes descobertas. Mais de sete mil estudos foram apresentados nesta edição, com destaque para o daraxonrasib, o primeiro medicamento a agir de forma efetiva contra o câncer de pâncreas, um dos mais letais. O remédio bloqueia a proteína KRAS, que atua na proliferação das células cancerígenas. “A oncologia é construída assim: ela vai somando conhecimento ao longo do tempo. Com certeza, tudo o que chega para a gente com dados tão importantes como esses amplia o nosso entendimento da doença e contribui para o controle de uma condição que ainda é tão desafiadora para o mundo”, conclui.



