Menstruação atrasada? Culpa não é de ressonância nem de acelerador
Atraso menstrual não é causado por fenômenos físicos

Se a sua menstruação atrasou, a culpa não é de uma frequência oculta na atmosfera nem de um acelerador de partículas na Europa. Vídeos virais afirmam que a ressonância de Schumann ou o Grande Colisor de Hádrons (LHC) do CERN estariam provocando atrasos menstruais em mulheres ao redor do mundo. No entanto, especialistas consultados pelo g1 são categóricos: não há qualquer fundamento científico nessas alegações.

Ressonância de Schumann: fenômeno real, mas inofensivo

A ressonância de Schumann existe: são ondas eletromagnéticas de baixa frequência que ocorrem na ionosfera, camada da atmosfera entre 60 mil e 70 mil quilômetros de altitude. O professor de física da USP Emerson Bezerra Conceição Junior explica que, por ser uma onda fraca e não ionizante, não tem energia para alterar átomos ou células do corpo humano. "Beira a loucura dizer que a ressonância está afetando o corpo humano. Não existe qualquer evidência de que isso aconteça. Se acontecesse, com décadas de pesquisa, nós já saberíamos", afirma.

O argumento de que tempestades solares intensificariam o efeito também não se sustenta. Segundo o professor, mesmo com variações na ionosfera, a frequência da ressonância permanece a mesma, e a intensidade ainda é insuficiente para causar qualquer impacto biológico.

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LHC: o tempo dentro do túnel não afeta o mundo externo

O segundo vídeo associa o atraso menstrual ao LHC, um túnel circular de 27 quilômetros na fronteira entre França e Suíça, operado pelo CERN. A alegação é que, após ser desativado em 29 de junho de 2026 para uma longa parada de manutenção (Long Shutdown 3), o tempo teria começado a fluir de forma diferente, afetando o ciclo menstrual.

A física Gabriela Bailas, que atuou no CERN, refuta a ideia: "O LHC não altera o espaço-tempo, não tem como o que acontece no experimento afetar a vida fora dele. De tempos em tempos os estudos são pausados para novas rodadas, desde sempre, e isso não cria qualquer interferência sobre como sentimos o tempo". O LHC está programado para retomar operações apenas em 2030, e desde sua inauguração em 2008, nunca houve registro de qualquer efeito temporal fora do túnel.

Causas reais do atraso menstrual

O ginecologista Marcelo Steiner enumera os verdadeiros fatores que podem desregular o ciclo menstrual: estresse e questões emocionais (o hipotálamo é sensível ao sistema límbico), alterações na tireoide, déficit energético (baixa ingestão calórica ou alto gasto físico), síndrome do ovário policístico (SOP), sobrepeso, obesidade e má alimentação.

Steiner explica que a combinação desses fatores pode levar muitas mulheres a experimentarem atrasos simultaneamente, criando uma falsa impressão de causa global. "O ciclo pode ter muitas variáveis, então as pessoas jogam esse tipo de coisa sobre o ciclo porque é fácil ter mulheres com algum atraso. E aí gera esse efeito de reconhecimento coletivo. Mas não há nenhuma evidência de que qualquer coisa dessa possa alterar o ciclo de uma mulher", conclui.

A recomendação médica é buscar avaliação profissional caso a irregularidade persista, em vez de acreditar em teorias sem respaldo científico.

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