Uma equipe internacional de cientistas identificou uma estrutura molecular inédita no cérebro de pacientes com Alzheimer, que pode se tornar um novo alvo terapêutico para a doença. A descoberta, publicada na revista Nature nesta terça-feira (3), revela uma proteína até então desconhecida que se acumula nas sinapses, prejudicando a comunicação entre os neurônios.
O que foi encontrado?
Os pesquisadores, liderados pela Universidade de Cambridge, analisaram amostras de tecido cerebral de 40 pacientes com Alzheimer e 30 indivíduos saudáveis. Eles identificaram uma proteína chamada APOE3 em uma conformação tridimensional nunca antes observada. Essa estrutura, denominada APOE3-fibrila, forma agregados tóxicos que se ligam aos receptores de glutamato, essenciais para a memória e o aprendizado.
“É como se uma chave entrasse na fechadura errada e a danificasse”, explicou a Dra. Helena Martins, coautora do estudo e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). “Essa estrutura bloqueia a sinapse, impedindo que os sinais elétricos sejam transmitidos corretamente.”
Como a descoberta foi feita?
Os cientistas utilizaram criomicroscopia eletrônica de alta resolução, uma técnica que permite visualizar moléculas em escala atômica. Eles compararam as amostras de pacientes com Alzheimer em diferentes estágios da doença e descobriram que a presença da APOE3-fibrila aumenta conforme a doença progride.
“Pela primeira vez, vimos uma estrutura específica que se correlaciona diretamente com o declínio cognitivo”, afirmou o Dr. John Smith, líder do estudo. “Isso nos dá um alvo concreto para desenvolver medicamentos que possam desestabilizar esses agregados.”
Impacto para o tratamento
Atualmente, os tratamentos para Alzheimer focam na remoção das placas beta-amiloide e dos emaranhados de proteína tau. No entanto, muitos pacientes não respondem a essas terapias. A nova descoberta oferece uma alternativa: se for possível impedir a formação da APOE3-fibrila ou neutralizá-la, a progressão da doença pode ser retardada.
“Essa estrutura é um alvo promissor porque atua em um estágio inicial da doença, antes que os danos sejam irreversíveis”, comentou a Dra. Helena Martins. “Precisamos agora desenvolver anticorpos ou pequenas moléculas que se liguem especificamente a essa conformação.”
Próximos passos
Os pesquisadores planejam realizar testes em camundongos transgênicos que expressam a APOE3-fibrila, para avaliar a eficácia de potenciais fármacos. Se os resultados forem positivos, os ensaios clínicos em humanos podem começar em até cinco anos.
“Ainda há um longo caminho, mas essa descoberta abre uma nova frente na luta contra o Alzheimer”, concluiu o Dr. Smith. “Estamos otimistas.”
O Alzheimer afeta mais de 55 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e não tem cura. Novos alvos terapêuticos são urgentemente necessários.



