Alcoolismo feminino: procura por ajuda cresce e atinge 1 atendimento por hora
Alcoolismo feminino: ajuda cresce, 1 atendimento por hora

No primeiro semestre de 2026, os canais de ajuda do Colcha de Retalhos, iniciativa de mulheres alcoólicas de Alcoólicos Anônimos (A.A.), registraram 4.862 atendimentos a mulheres de todas as regiões do Brasil. Esse número equivale a aproximadamente um atendimento por hora. Os dados refletem um cenário alarmante: o consumo episódico pesado de álcool entre mulheres atingiu o maior nível da série histórica, com 15,9% em 2024, segundo análise do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), baseada no Vigitel.

Aumento do consumo entre mulheres

O crescimento do consumo episódico pesado foi impulsionado principalmente pelas mulheres. A prevalência feminina saltou de 10,4% em 2010 para 15,9% em 2024, enquanto entre os homens houve estabilidade, variando de 26,9% para 26%. Como consequência, a diferença entre os sexos caiu para o menor nível da série histórica. Entre jovens de 18 a 34 anos, essa distância é de apenas 4,2 pontos percentuais.

O levantamento do CISA também revela que o Sudeste concentra a maior prevalência de consumo excessivo na população geral, enquanto Palmas, Teresina, Cuiabá e Vitória aparecem entre as capitais com maiores índices. Ao mesmo tempo, houve queda da frequência do consumo diário entre quem bebe e aumento da proporção de pessoas que afirmam nunca consumir bebidas alcoólicas.

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Procura por acolhimento feminino

Para acompanhar uma realidade marcada por especificidades da experiência feminina, a Colcha de Retalhos ampliou uma rede de acolhimento voltada exclusivamente para mulheres. No primeiro semestre de 2026, foram realizados 4.862 atendimentos, com março, abril e maio concentrando os maiores volumes, com mais de 800 atendimentos por mês. Atualmente, a iniciativa mantém 80 reuniões femininas, presenciais e on-line, incluindo grupos voltados para mulheres negras, bariátricas e homoafetivas.

Segundo a organização, o atendimento é feito por mulheres voluntárias que acolhem quem procura ajuda e as convidam a participar das reuniões. A maioria das mulheres que busca ajuda nunca procurou tratamento formal. O Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) estima que 11,9% da população adulta preenche critérios para diagnóstico de transtorno por uso de álcool, mas 95,2% nunca buscaram tratamento para parar de beber, e menos de 5% afirmam já ter feito algum tratamento ao longo da vida.

Mortes e internações ainda em níveis altos

Em 2023, o Brasil registrou 7.696 mortes por transtorno por uso de álcool, cerca de 21 por dia. Embora represente queda em relação aos anos anteriores, o número ainda permanece acima do registrado antes da pandemia e é 8,9% maior do que o observado em 2010. Os homens responderam por mais de 90% dos óbitos. No entanto, o perfil das vítimas mudou: enquanto houve redução das mortes entre adultos mais jovens, o número de óbitos entre pessoas com 55 anos ou mais aumentou 59,7% entre 2010 e 2023.

As internações também cresceram após a pandemia. Em 2023, foram 40.907 hospitalizações por transtorno por uso de álcool, cerca de quatro por hora. As mulheres passaram a representar uma parcela maior dessas internações, e os idosos também aumentaram sua participação entre os pacientes hospitalizados.

Histórias de superação

B.B., de 48 anos, moradora de Brasília, começou a beber aos 15 anos. Filha de um pai alcoólatra, conta que durante muito tempo acreditou que bebia socialmente, até perceber que não conseguia controlar a quantidade de álcool que consumia. Ela relata que passou 28 anos convivendo com a doença e que o alcoolismo provocou perdas sucessivas. "Perdi meu casamento, minha vida financeira, a confiança da família e minha dignidade", afirma. Entre apagões e brigas na rua, diz que chegou a perder a vontade de viver. O momento mais crítico ocorreu quando foi encontrada desacordada em seu apartamento, em coma alcoólico e convulsionando. Dois dias depois, conheceu Alcoólicos Anônimos por meio da linha de ajuda on-line. Ainda sofreu uma recaída no réveillon de 2023 para 2024, mas retornou às reuniões e decidiu seguir o programa de recuperação. Hoje, afirma dedicar parte da rotina ao tratamento, diz ter recuperado o vínculo com os filhos e a família e considera a irmandade sua "filosofia de vida".

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Beta, de 48 anos, se apresenta como "uma mulher cis, lésbica, negra alcoólica". Ela conta que percebeu ainda na infância que se sentia atraída por meninas, mas cresceu cercada por dúvidas, medo da rejeição e falta de acolhimento. Ao mesmo tempo em que sua orientação sexual era alvo de questionamentos, lembra que o contato com o álcool era naturalizado desde cedo: experimentava espuma de cerveja aos seis anos e, aos 13, já era autorizada a beber. Na faculdade, relata que ir ao bar fazia parte da rotina e que a bebida funcionava como uma forma de diminuir o medo de se aproximar das mulheres pelas quais sentia atração. O que começou como diversão, porém, tornou-se um tormento. Ela foi casada por 14 anos e afirma que a esposa sofreu com seu alcoolismo, especialmente durante as internações. Depois de entrar e sair algumas vezes de Alcoólicos Anônimos, Beta retornou por meio das reuniões on-line e passou a frequentar encontros voltados para mulheres homoafetivas. Segundo ela, esses espaços lhe deram identificação, acolhimento e a possibilidade de falar sobre sua orientação sexual e sua dependência sem medo de julgamentos. "Não estamos dispersas, mas somos diversas", escreve em seu relato. Hoje, diz sentir orgulho de quem é e afirma que essas reuniões foram fundamentais para que permanecesse em recuperação.

Kika, de 51 anos, começou a mudar após a separação. Ela conta que passou a beber com mais frequência em encontros com amigas e durante os relacionamentos, até que o álcool entrou também na rotina dentro de casa como uma forma de aliviar o estresse provocado pelo trabalho, pelas responsabilidades com as três filhas, pelas contas e pela violência psicológica praticada pelo ex-marido. Durante a pandemia, diz que o consumo se intensificou e perdeu completamente o controle. Ela relata que escondia bebidas dos filhos e familiares, protagonizava escândalos, acordava sem lembrar onde estava e chegou a colocar a própria segurança em risco. Embora prometesse repetidamente às filhas que deixaria de beber, afirma que ainda não aceitava que era alcoólatra. Mesmo após procurar um psiquiatra e iniciar medicação, continuava consumindo álcool junto com o tratamento. Segundo Kika, o ponto de virada ocorreu quando o pai de suas filhas entrou na Justiça pedindo a guarda unilateral por considerar que o alcoolismo colocava as crianças em risco. Pouco depois, recebeu o convite para participar de uma reunião feminina on-line de Alcoólicos Anônimos. Ela conta que, ao ouvir outras mulheres, percebeu que suas histórias eram parecidas com a dela e decidiu permanecer no grupo. Um ano após abandonar o álcool, diz que passou a dormir melhor, retomou a prática de exercícios físicos, melhorou a alimentação e aprendeu a lidar de forma diferente com as próprias emoções.