Um estudo publicado na revista Neurology revelou que limitar o consumo de açúcar nos primeiros anos de vida pode ter um efeito protetor duradouro contra a demência. Pesquisadores analisaram dados de cerca de 65 mil britânicos nascidos entre as décadas de 1940 e 1950, período em que o racionamento de açúcar da Segunda Guerra Mundial restringiu severamente a ingestão do ingrediente no Reino Unido.
Os cientistas descobriram que as pessoas expostas a essa restrição ainda na gestação ou durante a primeira infância apresentaram um risco significativamente menor de desenvolver demência na vida adulta. A redução chegou a 23% entre aqueles que tiveram o consumo de açúcar limitado até os 2 anos de idade, em comparação com os nascidos após o fim do racionamento.
Proteção medida em números
O estudo acompanhou três grupos distintos. O primeiro era formado por 15.025 pessoas que passaram pela restrição de açúcar ainda na vida intrauterina e durante o primeiro ano de vida. Desses, 388 desenvolveram demência. O segundo grupo, com 15.256 indivíduos que vivenciaram a mesma limitação antes de nascer e até os 2 anos, registrou 456 casos da doença. Já entre os 23.774 nascidos depois que o racionamento terminou, 504 foram diagnosticados.
Com esses dados, os pesquisadores calcularam que o risco de demência foi 21% menor entre os participantes expostos à restrição de açúcar do período pré-natal até 1 ano de idade. Quando a limitação se estendia aos 2 anos, a queda no risco chegava a 23%. Os números foram ajustados levando em conta fatores como sexo, nível socioeconômico, idade, hipertensão e diabetes.
Início da doença adiado
Além da redução no risco, o estudo também observou que, entre as pessoas que eventualmente desenvolveram demência, o início da doença foi retardado em média 2,6 anos naquelas que tiveram menor exposição ao açúcar na primeira infância. Os benefícios apareceram tanto em bebês que consumiram menos açúcar diretamente quanto naqueles cujas mães reduziram a ingestão durante a gestação.
Esses achados reforçam uma linha de investigação já existente. Estudos anteriores com a mesma coorte de britânicos haviam mostrado que o baixo consumo de açúcar nos primeiros anos de vida e na gravidez estava associado a uma menor probabilidade de ataques cardíacos, insuficiência cardíaca e derrames.
O que dizem os pesquisadores
Jiazhen Zheng, especialista da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong em Guangzhou, na China, e coautor do estudo, destacou a importância da nutrição precoce. "Nossos resultados sugerem que limitar o consumo de açúcar nos primeiros estágios da vida pode trazer benefícios duradouros para a saúde cerebral. Esses resultados destacam a importância potencial da nutrição nos primeiros anos de vida para reduzir o risco de demência décadas depois", afirmou.
Zheng também comentou as implicações práticas: "Limitar o consumo de açúcares adicionados durante a gravidez e a infância pode ser uma medida benéfica que famílias e comunidades podem adotar, mas são necessárias mais pesquisas para entender melhor como essas exposições precoces influenciam o risco de demência e para orientar as estratégias de saúde pública".
Limitações do estudo
Os próprios cientistas ressaltam que o estudo é observacional. Isso significa que ele não pode estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a dieta e a demência. Também não é possível comprovar que comer menos açúcar, por si só, previne a doença. Outros fatores relacionados ao estilo de vida e à genética podem influenciar os resultados.
Ainda assim, as descobertas indicam que os primeiros anos de vida são uma janela crítica para a saúde do cérebro. Uma alimentação equilibrada, com baixo teor de açúcares adicionados, permanece como uma das melhores estratégias para proteger não apenas o coração, mas também a função cognitiva ao longo do envelhecimento.
Implicações para a saúde pública
Os dados reforçam a necessidade de políticas públicas que orientem famílias sobre a importância de evitar açúcar nos primeiros anos. Campanhas de conscientização e recomendações de pediatras e nutricionistas podem ajudar a reduzir a exposição precoce, com potenciais ganhos para a saúde cerebral de gerações futuras. A pesquisa, no entanto, ainda precisa de novas investigações para transformar essas observações em diretrizes clínicas mais concretas.



