Reforma da Rua Javari divide torcedores entre modernização e preservação histórica
Reforma da Rua Javari divide torcedores entre modernização e história

A tradicional Rua Javari, estádio do Clube Atlético Juventus, localizado na Mooca, Zona Leste de São Paulo, vive uma transformação que divide opiniões. Reformas recentes reacenderam o debate sobre como modernizar um patrimônio histórico sem descaracterizá-lo, justamente no momento em que o clube retorna à elite do futebol paulista após 18 anos.

O projeto Arena Javari

Administrado pela SAF Contea Capital, que promete investir R$ 480 milhões, o Juventus traçou um plano de longo prazo que prevê investimentos ao longo de uma década, com a meta de disputar a Série A do Campeonato Brasileiro em 2035. O projeto "Arena Javari", lançado há pouco mais de uma semana, prevê a ampliação das arquibancadas laterais, construção de novos camarotes e um rooftop. A capacidade será ampliada de cinco mil para 11 mil espectadores em dias de jogos e até 25 mil pessoas em eventos e shows. A obra está dividida em duas etapas, com conclusão prevista para dezembro.

Preservação versus modernização

Em 2020, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) decidiu que muros, entrada principal, bilheterias, arquibancadas, gerais e o campo devem ser preservados. Qualquer intervenção depende de aprovação do órgão. A SAF protocolou um pedido de revisão da resolução de tombamento, argumentando que precisa ampliar a capacidade para atender às exigências esportivas. Entre os pedidos estão alterações internas, criação de novos acessos, reformulação da arquibancada coberta e ampliação das áreas de circulação, sempre respeitando os elementos protegidos.

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O torcedor e colecionador de camisas do Juventus, Hamilton Kuniochi, explicou que o tombamento ocorreu em uma época de especulação imobiliária no bairro, com medo de que o clube vendesse o estádio. "O tombamento aconteceu para evitar que o estádio desaparecesse", afirmou.

Controvérsias e questionamentos

Em maio, as primeiras obras começaram antes da análise e aprovação do Conpresp. O arquiteto, urbanista e vereador de São Paulo, Nabil Bonduki, afirma que as intervenções ultrapassaram o limite das pequenas reformas autorizadas. "Qualquer intervenção em um imóvel tombado tem que obrigatoriamente passar por uma aprovação do Conpresp. Eles tiveram uma aprovação para pequenas reformas e, com base nisso, fizeram grandes intervenções que precisariam ter aguardado o processo do Conpresp evoluir", disse Nabil em entrevista ao ge.

O Conpresp determinou a apresentação de um projeto atualizado e um relatório fotográfico das intervenções já realizadas, além de uma análise complementar do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) sobre o pedido de alteração da resolução de tombamento. Para o vereador, o material apresentado pelo Juventus não permite identificar com clareza todas as mudanças previstas. A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa informou que o Conpresp aprovou parcialmente o pedido de reforma, mas aguarda complementação dos documentos. A legislação municipal prevê multa de uma a dez vezes o valor do imóvel em casos de danos a bens tombados.

Posição da SAF

O CEO da SAF do Juventus, Cláudio Fiorito, afirma que o projeto não prevê a construção de um novo estádio, mas uma revitalização. "É um projeto de revitalização e restauro que respeita integralmente a história do estádio. A essência permanece exatamente a mesma. O objetivo nunca foi transformar a Javari em uma arena moderna, mas recuperar seu patrimônio", declarou. Segundo ele, elementos tombados como fachada, bilheteria e tribunas históricas serão preservados. "O projeto não prevê alterações nessas estruturas tombadas. O trabalho realizado nesses espaços é exclusivamente de conservação e restauro", completou.

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Sentimento dos torcedores

Os torcedores acompanham as mudanças com expectativa e preocupação. Renato Corona, torcedor e narrador das partidas, disse: "A Rua Javari é como se fosse nossa casa, lugar em que você encontra amigos, vai para se divertir, dar risada. É um lugar que é o nosso refúgio". O professor Pasquale, frequentador desde a década de 1960, contou que muitas vezes deixou de morar na Mooca e ia de madrugada até a Rua Javari para olhar a fachada. Hamilton afirmou que a maioria da torcida entende a necessidade das mudanças, mas teme perder a memória afetiva. "A maioria quer ver o Juventus crescendo e evoluindo, mas tem preocupação com a memória afetiva e com esse sentimento de pertencimento que existe com a Javari", disse. Corona compartilha da mesma percepção: "É uma coisa que sabíamos que iria acontecer. Sabíamos que ia acontecer, mas a gente espera que a Rua Javari não perca sua tradição".

História e simbolismo

O estádio teve origem na década de 1920, quando funcionários da Cotonifício Rodolfo Crespi convenceram o Conde Rodolfo Crespi a ceder o terreno para a equipe. Reinaugurado em 1940, mantém características como estreitas arquibancadas, ausência de iluminação artificial e placares manuais, que atraem torcedores em busca de uma experiência "raiz". Em 1959, Pelé fez história no local, marcando o gol considerado o mais bonito de sua carreira em uma vitória do Santos por 4 a 0 sobre o Juventus, com quatro chapéus. Pasquale relembrou: "Vi muitos jogos antológicos na Javari. Vi o Pelé jogar lá". Para Corona, as transformações do bairro simbolizam o momento do estádio: "As coisas estão mudando, haja vista o boom imobiliário no bairro. Infelizmente o futuro é o progresso. Não será diferente com a Rua Javari. Vai ter suas mudanças, suas modernidades. Espero que fique na modernidade visual, mas mantenha esse clima, essa aura de estádio tradicional".