Marco Zero de João Pessoa: lei define, mas controvérsia persiste
Marco Zero de João Pessoa: lei define, mas controvérsia persiste

João Pessoa completa 441 anos nesta quarta-feira (5), mas ainda não há consenso sobre onde seria o Marco Zero da capital. Um ponto histórico foi definido por lei em 2019, mas está deteriorado e gera controvérsia: o monumento representa, de fato, a origem da cidade?

Essa situação traz um problema: ao contrário de outras capitais do Nordeste, como Recife e Salvador, que têm Marcos Zeros conhecidos e atraem turistas, João Pessoa deixa de preencher uma lacuna que poderia ser aproveitada. Parte do setor de turismo no estado afirma que isso impacta negativamente a economia local.

O que diz a lei

Um projeto de lei de 8 de maio de 2018, de autoria do vereador Humberto Pontes, instituiu o Marco Zero da cidade. Em dezembro daquele ano, após aprovação na Câmara Municipal, o projeto foi para sanção do então prefeito Luciano Cartaxo, que o vetou alegando "vícios" na elaboração e que "não é possível fixar tecnicamente o local exato do surgimento da cidade".

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Mesmo com o veto, a Câmara derrubou a decisão e oficializou o Marco Zero em 2019, definindo-o "ao lado da Catedral Basílica Nossa Senhora das Neves, na Praça Dom Ulrico, no Centro". O texto da lei cita a "localização geodésica estudada e determinada pelo Poder Executivo através da Malha de Marcos Geodésicos da cidade de João Pessoa".

No local, há um Marco Geodésico e um monumento de sinalização de coordenadas geográficas de 1921 e 1922, ambos deteriorados. A lei de 2019 já ressaltava: "A pedra que caracteriza o marco zero, datada de 1922, está quebrada e quase não se consegue ler as informações. A placa de sinalização turística está deteriorada pela ação de vândalos". O local "foi depredado e atualmente serve apenas de estacionamento".

Historiador questiona

O professor Ângelo Emílio da Silva, do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), afirma que nenhum dos dois monumentos pode ser considerado Marco Zero, apesar de a região da Catedral ser uma forte candidata. "Lamentavelmente, as pessoas colocam o marco geodésico, uma coisa bem posterior, que tem outras finalidades em relação aos trabalhos do IBGE, como se fosse um marco de fundação. Não é", disse.

Ele remonta a 1585, ano de fundação da cidade, quando havia a União Ibérica. Após acordo luso-espanhol com os Tabajaras, os colonos se estabeleceram em torno do Varadouro. "Se a gente for atrás de uma origem canônica, ela estaria entre o Varadouro e o topo da colina", explicou.

O pesquisador aponta outros possíveis pontos de origem: os primeiros ensaios de povoamento perto da Igreja de São Pedro Gonçalves e do Porto do Capim; ou, se a régua for a estruturação oficial, o marco seria a Rua Nova (atual General Osório), onde foram instaladas a Paróquia de Nossa Senhora das Neves e a Câmara Municipal. "A Câmara é, do ponto de vista legal português, a estrutura que define a existência de um município", acrescentou.

Turismo e economia

O empreendedor Michael Bruno, que trabalha com excursões, lamenta: "Absolutamente ninguém pergunta onde fica o Marco Zero. Aqui é outra realidade, diferente de Recife, onde é muito visitado. Aqui a gente não tem essa referência da nossa própria história".

O economista Cássio Besaria, mestre pela UFPB, afirma que um Marco Zero reconhecido poderia aquecer a economia: "O fluxo de visitantes pode impulsionar o comércio, a gastronomia, os equipamentos culturais e os serviços turísticos, aumentando o tempo de permanência e os gastos".

Michael Bruno cobra ação: "Existe um abandono, falta de interesse do setor público e da população. Ou João Pessoa se reinventa, com atrativos que valorizem nossa identidade histórica, ou a história se perderá com o tempo".

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Prefeitura responde

O secretário Thiago Lucena, da Secretaria de Preservação, Revitalização e Inovação do Centro Histórico (Inovacentro), disse que a discussão "precisa sair da polêmica e ser conduzida com seriedade, participação popular e fundamento histórico". A pasta propõe um "processo público, técnico e participativo", com consulta pública, audiência e dossiê técnico final, convidando UFPB, IPHAN, IPHAEP, Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, Comitê de Fomento ao Centro Histórico e Arquidiocese. O objetivo é apresentar uma recomendação sobre "manutenção ou eventual alteração da lei atual".