O número de motocicletas no Rio de Janeiro saltou de cerca de 890 mil para 1,46 milhão entre 2016 e abril deste ano, uma alta de 65,7%, segundo dados do Ministério dos Transportes. No mesmo período, a frota de carros cresceu apenas 18,4%. Esse avanço acelerado, especialmente após a pandemia, transformou a mobilidade na cidade, mas também trouxe desafios como o aumento de acidentes e a pressão sobre o sistema de saúde.
Crescimento acelerado pós-pandemia
Os registros do Detran indicam uma aceleração nos emplacamentos. Em 2020, haviam 354 mil motos licenciadas na cidade; em maio deste ano, o número subiu para 514 mil. Especialistas apontam que a moto inicialmente servia como complemento para a primeira e última milha do transporte público, mas com a chegada dos aplicativos, passou a substituir ônibus, trem e metrô em viagens porta a porta.
Motocicleta como alternativa ao transporte público
Dados de duas grandes plataformas de transporte por moto mostram que os principais embarques e desembarques ocorrem em terminais de ônibus, trem e metrô, e os picos de demanda coincidem com os horários de pico: entre 7h e 8h e entre 17h e 18h. Pesquisadora Clarisse Cunha Linke, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, explica: “Com a entrada dos aplicativos, a moto também começa a substituir o transporte público no porta a porta. Por uma questão de tempo, custo e segurança. Ela acaba sendo uma alternativa a um sistema que é caro, inseguro e que não oferece previsibilidade.”
Depoimentos revelam economia de tempo e dinheiro
Auxiliar de cozinha Priscila Mariana Pereira, moradora de Belford Roxo, diz que quando a corrida de moto está barata, prefere a moto ao ônibus: “Deu R$ 3 e pouco. Vale a pena. Até ficar no ponto esperando o ônibus, que é R$ 5, prefiro pegar moto.” Garçonete Rafaela Natanael também opta pela motocicleta por considerá-la mais rápida e mais segura em relação ao assédio que sofreu em outros transportes. Motociclistas por aplicativo como Carlos Eduardo Fonseca vivem “correndo contra o tempo”, enquanto Rômulo Moraes, que perdeu o emprego de motorista de caminhão, encontrou na moto uma nova fonte de renda. Ele trabalha das 7h às 19h e fatura cerca de R$ 6 mil mensais antes dos custos, mas reconhece os riscos: “A gente sai de casa sem saber se vai voltar.”
Riscos e desigualdade na mobilidade
O crescimento das motos também elevou o número de acidentes. Segundo dados da reportagem, 7 em cada 10 vítimas atendidas em hospitais municipais do Rio estavam em motocicletas. Para Clarisse Linke, o fenômeno escancara a desigualdade social: “Quem mais sofre e quem mais está em risco é justamente a população de baixa renda, preta e periférica.” A moto representa economia de tempo e dinheiro, mas expõe esses trabalhadores a perigos que o poder público ainda precisa enfrentar.



