Freiras da 'adoração perpétua' vivem enclausuradas no Paraná, atrás de grades para focar na missão de rezar por todo o mundo. Elas usam trajes tradicionais cor-de-rosa para representar a felicidade de estar a serviço de Deus. Assim é a vida das Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua, congregação católica com cerca de 20 conventos pelo mundo, sendo apenas um no Brasil. No local, a principal ocupação é rezar, preceito básico que as diferencia de outras congregações. Em vez de missões externas, trabalho em hospitais ou aulas, elas têm vida predominantemente contemplativa.
Missão de oração contínua
"Nós rezamos muito pelas pessoas, pela igreja, pelo mundo todo. Pelos sacerdotes, pelos missionários... A nossa missão principal é essa: a nossa entrega total a Deus no louvor, na adoração, na súplica também e pedir realmente pela humanidade toda", afirma a madre Maria Elizabeth. O doutor em Teologia Kevin Kossar Furtado, professor do departamento de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), destaca que a oração contínua é central na identidade e missão das irmãs. "A congregação entende que sua contribuição para a Igreja e para a sociedade ocorre por meio da oração permanente em favor de diferentes causas e pessoas ao redor do mundo", afirma.
História e clausura
A congregação foi fundada em 1896, e o Convento Nossa Senhora do Cenáculo foi criado em Ponta Grossa, a cerca de 100 km de Curitiba, em 1983. As 18 freiras que vivem no local só saem em emergências médicas, odontológicas ou para resolver burocracias, o que significa clausura permanente. As idades variam de menos de 30 a mais de 90 anos. A rotina começa às 4h45 e o primeiro louvor às 5h15.
Processo de entrada
Para ser irmã, basta demonstrar interesse. O processo envolve assumir compromissos até chegar à clausura, seguindo o modelo padrão da Igreja Católica, dividido por etapas com duração específica. Em alguns casos, pode passar dos 10 anos. O compromisso definitivo ocorre com os votos perpétuos, mas mesmo após essa decisão, a irmã pode deixar de ser freira mediante processo formal que pode chegar ao Vaticano.
"A clausura foi feita justamente para nos ajudar a viver melhor a nossa forma de vida. Para nós, é um símbolo de liberdade... Liberdade para poder viver plenamente e intensamente a nossa vocação, a nossa missão aqui dentro", avalia Maria Elisabeth.
Adoração perpétua e rotina
As freiras se revezam dia e noite para que ao menos uma esteja sempre em adoração diante do Santíssimo Sacramento. Elas dividem o tempo entre orações, produção de hóstias, afazeres domésticos e missas abertas ao público, nas quais permanecem em área separada por grades. O silêncio é necessário em grande parte do dia, mas a casa é repleta de alegria e momentos de descontração, representados na cor das vestes. "Nosso hábito cor-de-rosa simboliza nossa especial consagração ao Espírito Santo e manifesta nossa alegria por estar a serviço de Deus", explica.
Uso de grades e contato externo
O contato com o mundo externo é feito principalmente por visitantes, que veem e conversam com as freiras através de grades. A capela fica aberta ao público com missas diárias. A comunidade pode pedir orações ou deixar desabafos por escrito. Conversas separadas são permitidas em salas com gradil. Kevin Furtado explica que o uso de grades surgiu na Idade Média e se consolidou na Idade Moderna como parte da separação entre vida religiosa e mundo exterior. "Muitas conversas, orientações espirituais, encontros familiares e negociações administrativas aconteciam através dessas divisórias", aponta.
Rotina detalhada
A rotina começa às 4h45. As irmãs acordam e iniciam o louvor às 5h15 com as Laudes. Em seguida, meditação pessoal e missa aberta ao público. Após o café da manhã, rezam o Ofício das Leituras e a Hora Terça. Durante o dia, revezam-se em adoração, afazeres domésticos, costura, jardinagem, confecção de hóstias e atendimento aos fiéis. Às 12h, rezam a Hora Sexta. Após o almoço, têm uma hora de descanso. Às 15h10, Hora Nona; às 17h20, terço comunitário e Vésperas. Cada irmã tem uma hora diária de oração pessoal. Após o jantar, recreação comunitária. A última oração comunitária são as Completas.
De segunda a sexta, produzem hóstias para seis paróquias da Diocese: cerca de 70 pacotes de 200g por mês para os fiéis (49.000 hóstias) e 20 pacotes para sacerdotes (600 hóstias de tamanhos diferentes).



