Tremores em Belém durante jogo do Brasil reacendem dúvidas sobre sismicidade
Tremores em Belém: por que a capital sente terremotos distantes?

Moradores de Belém relataram tremores na noite de quarta-feira (24), enquanto muitos acompanhavam o último jogo da Seleção Brasileira. O episódio reacendeu uma pergunta recorrente: por que a capital paraense sente terremotos se está distante das regiões mais sísmicas do planeta? O solo da cidade e a altura dos edifícios podem ter contribuído para que as vibrações fossem percebidas, especialmente nos andares mais altos.

Terremoto na Venezuela foi a causa

Os tremores em Belém foram provocados por um terremoto de grande magnitude registrado na Venezuela, também percebido em outros estados da Região Norte. No Pará, além da capital, moradores de Anajás, no arquipélago do Marajó, e de Santarém relataram os reflexos das ondas sísmicas. Em Anajás, uma câmera de segurança registrou a água de uma piscina oscilando enquanto uma família assistia à partida; segundo os moradores, não havia vento forte no momento.

Em Belém, dez edifícios foram evacuados temporariamente por precaução. A Defesa Civil vistoriou todos eles e os moradores retornaram aos seus apartamentos; uma nova vistoria está prevista para duas semanas.

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Explicação científica: solo sedimentar e prédios altos

O professor Saulo Siqueira Martins, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA), explicou que Belém praticamente não registra terremotos com epicentro próximo. "O que aconteceu agora é mais um episódio provocado por um terremoto distante, neste caso, na Venezuela. Belém não tem registro de terremotos com epicentro próximo. Os episódios sentidos aqui são, na grande maioria, ondas sísmicas vindas de grandes terremotos da Cordilheira dos Andes e da região do Caribe."

Mesmo viajando milhares de quilômetros, essas ondas chegam com energia suficiente para provocar pequenas oscilações. "O solo de Belém é sedimentar, e esse tipo de terreno amplifica determinadas vibrações. Além disso, os prédios altos oscilam de uma forma que combina com as ondas longas produzidas por grandes terremotos distantes. Por isso, quem está nos andares mais altos costuma sentir o tremor, enquanto prédios baixos ao lado muitas vezes não registram nenhum efeito."

O pesquisador destaca que Belém está localizada no interior da Placa Sul-Americana, distante das bordas tectônicas onde ocorrem os grandes terremotos. As ondas sísmicas que chegam à capital são geradas principalmente em duas regiões: na Cordilheira dos Andes, onde a Placa de Nazca mergulha sob a Placa Sul-Americana, e no sistema de falhas do Caribe, responsável pelos terremotos na Venezuela e nas Antilhas.

Histórico de tremores em Belém

Embora o episódio desta semana tenha chamado atenção, não é inédito. O caso mais antigo bem documentado ocorreu em 12 de janeiro de 1970, no aniversário de Belém. Na ocasião, moradores do centro relataram portas e janelas tremendo, enquanto o Edifício Manoel Pinto da Silva — então o prédio mais alto da Amazônia — apresentou oscilações perceptíveis. Segundo o professor, não houve rachaduras nem danos estruturais. Ele alerta para uma confusão histórica: "Muita gente associa esse episódio ao grande terremoto de Ancash, no Peru. Mas o terremoto peruano aconteceu apenas em 31 de maio de 1970, quase cinco meses depois. Não existe relação entre os dois eventos."

Outro episódio marcante ocorreu em agosto de 2018, quando um terremoto de magnitude 7,3 na Venezuela também foi sentido em Belém. Na ocasião, moradores de edifícios altos deixaram seus apartamentos após perceberem o balanço das estruturas. O tremor desta semana repete esse padrão.

Tremores com epicentro no Pará

Além dos reflexos de terremotos em outros países, o Pará registra pequenos tremores com epicentro no próprio estado. Recentemente, uma reunião sobre o tema foi realizada em Tucuruí devido à segurança da usina hidrelétrica local. Segundo o professor Saulo Martins, esses eventos são resultado de reajustes naturais na crosta terrestre, associados à reativação de antigas falhas geológicas no interior da Placa Sul-Americana. Nos últimos anos, houve registros em municípios como Breves, Baião, Canaã dos Carajás e Tucuruí, geralmente tremores de baixa magnitude, raramente percebidos pela população.

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Há motivo para preocupação?

Para o especialista, não. "Não há qualquer indicação de aumento da atividade sísmica em Belém. O tremor desta semana foi apenas um efeito remoto de um terremoto ocorrido na Venezuela, exatamente como aconteceu em 2018." O professor também destaca que o fato de um edifício oscilar não significa comprometimento estrutural: "Prédios bem projetados são construídos justamente para absorver esse tipo de movimento."

O monitoramento sísmico no Brasil é realizado continuamente pela Rede Sismográfica Brasileira, coordenada pelo Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP) e pelo Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), instituições responsáveis pelo acompanhamento oficial da atividade sísmica no país.