A filósofa, escritora e ativista Djamila Ribeiro esteve em Santos, litoral de São Paulo, para uma aula magna e sessão de autógrafos da edição ampliada de seu best-seller "Lugar de Fala". Em entrevista ao g1, ela falou sobre as mudanças na obra, a popularização do conceito nas redes sociais e a influência da cidade em sua trajetória.
Nova edição quadruplica de tamanho
Segundo Djamila, a nova edição acompanha as transformações dos últimos anos e busca aprofundar o debate sobre o conceito que dá nome ao livro. "O livro quadruplicou de tamanho e ganha uma segunda parte totalmente inédita", afirmou. A obra traz prefácio de Chimamanda Ngozi Adichie e apresentação de Grada Kilomba, além de novas referências e autoras que ajudam a ampliar o conceito.
Djamila explicou que sua experiência de morar e lecionar fora do Brasil — na Universidade de Nova York e no MIT — permitiu acesso a outras bibliografias e debates que não estavam disponíveis quando o livro foi lançado originalmente em 2017. "Penso o lugar de fala no jornalismo, no marketing de influência e no debate sobre os direitos das mulheres", disse.
Lugar de fala: ampliar, não interditar
A escritora comentou as simplificações que o termo passou a sofrer nas redes sociais. "Muitas pessoas não leram o livro e passaram a reproduzir interpretações que viram na internet", lamentou. Ela reforçou o significado do conceito: "Lugar de fala não é interdito do debate, é ampliar o debate. Não é sobre o que se fala, mas de onde se fala, trazendo diferentes perspectivas de lugares sociais distintos".
Djamila destacou que o conceito busca valorizar a produção intelectual de povos indígenas e mulheres negras, e que espera que as pessoas possam "ir à fonte do que é e não reproduzirem o esvaziamento e as simplificações".
Santos: formação intelectual e política
Nascida em Santos, Djamila ressaltou a importância da cidade em sua trajetória. "Meu pai foi estivador no Porto de Santos, estudei no Colégio Moderno dos Estivadores, trabalhei na Casa de Cultura da Mulher Negra e fui voluntária da Educafro. Muito da minha formação intelectual e política nasceu dessas experiências", afirmou.
Ela também comentou a influência da vivência no exterior em sua visão sobre o Brasil. "Me mostrou o quanto a nossa formação no Brasil é excelente. O Brasil é exemplo na implementação de políticas públicas que não acontecem em outros países. Racismo é crime no Brasil; nos Estados Unidos, por exemplo, não é."
Ampliação dos estudos feministas
A experiência internacional também ampliou seus estudos sobre feminismo. "Dar aulas na Universidade de Nova York e no MIT me proporcionou conhecer outros pesquisadores e acessar novas bibliografias", disse. No livro, ela inclui feministas indígenas e debates sobre feminismo comunitário da Argentina e do México, enriquecendo seu repertório intelectual com diálogos na América do Sul e em países africanos.



