Obras emergenciais no litoral sul
Barreiras com tubos geotêxteis cheios de areia estão sendo instaladas para conter a erosão marinha que ameaça dividir uma parte da Ilha do Cardoso, em Cananéia, no litoral sul do Estado de São Paulo. De acordo com o governo estadual, serão instaladas duas barreiras de 450 metros, uma em cada lado do Estreito do Melão, onde as marés ameaçam abrir uma nova barra (ligação) entre o oceano e o Canal de Ararapira.
O Estreito já havia perdido uma parte de seu território em 2018, quando a primeira barra se abriu e atualmente supera os 200 metros de largura. Na época, as comunidades Vila Rápida e Enseada foram obrigadas a se mudar. Se a nova barra abrir, serão impactadas as comunidades de Restinga, Vila Mendonça e Nova Enseada – esta pode ter sua segunda mudança causada pelas erosões.
Decisão judicial e mobilização comunitária
No dia 9 de março deste ano, a Justiça concedeu nova liminar com o objetivo de conter a erosão na Ilha do Cardoso. A decisão atende a pedido da Promotoria Regional do Meio Ambiente do Vale do Ribeira para que o Estado de São Paulo e a Fundação Florestal adotem medidas de contenção e proteção às famílias locais.
Para Jorge Cardoso, engenheiro ambiental, caiçara e que vive na Enseada da Baleia – comunidade realocada em 2017 devido ao avanço do mar –, a intervenção é um marco. “As comunidades não desejam sair dos seus espaços. Existe um vínculo afetivo com seu território. A intervenção representa uma resposta a uma demanda construída coletivamente”, afirma.
Técnica inovadora com geotubos
Cada tubo geotêxtil, semelhante aos usados na Ponta da Praia, em Santos, tem 25 metros de comprimento e 1,8 metro de altura e é preenchido com areia do próprio Canal de Ararapira. Eles são fixados em linha no ponto de arrebentação das ondas no lado do oceano e junto à margem do canal no lado oposto.
A intervenção, conduzida pela Fundação Florestal em parceria com a SP Águas, marca o início da execução de uma solução técnica baseada em estudos especializados, monitoramentos e diálogo com a comunidade. O investimento é de cerca de R$ 12 milhões. A obra prevê dragagem e reposicionamento de sedimentos para recomposição do cordão arenoso no Estreito do Melão, com duração prevista de nove meses.
Impacto das mudanças climáticas
Conforme a Fundação Florestal, o processo erosivo está associado a fenômenos naturais da região, influenciados por marés, correntes, ventos, ressacas e movimentação de sedimentos. Nos últimos anos, o Estado intensificou o monitoramento diante da aceleração das transformações devido às mudanças climáticas.
O fenômeno foi registrado por imagens de satélite da constelação Dove, da empresa Planet, fornecidas pela plataforma SCCON, que integra o Programa Brasil MAIS (Meio Ambiente Integrado e Seguro), maior projeto de sensoriamento remoto do País.
Participação comunitária e etapas preparatórias
Tatiana Cardoso, assessora técnica comunitária da Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso, destaca que a obra é resultado de anos de mobilização. “Contribuirá para reduzir os riscos enfrentados pelas comunidades tradicionais, ajudando a garantir a permanência das famílias em seus territórios e a continuidade dos modos de vida caiçaras”, diz.
Antes do início operacional, foram realizadas sondagens geotécnicas, análises de sedimentos, levantamentos batimétricos, elaboração do projeto executivo, contratação da empresa e mobilização de equipamentos. Agora, as equipes dragam e reposicionam sedimentos nos pontos definidos, e a barreira geotêxtil ajuda a conter o material e reduzir o impacto das marés.
Contexto ambiental e visitação controlada
Localizado no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o Estreito do Melão é o trecho mais vulnerável da unidade de conservação à erosão costeira. Estudos apontam que, na parte sul da ilha, o processo foi intensificado pela abertura do Canal do Varadouro nos anos 1950, acelerado nos últimos anos pela crise climática, com mais ressacas.
A região integra um importante mosaico ambiental, com Mata Atlântica, manguezais, restingas e comunidades caiçaras. O entorno é propício para avistamento de baleias e golfinhos. O acesso ao parque é exclusivamente por transporte náutico e a visitação é controlada.



