A Prefeitura de Rio Branco decretou estado de alerta para enfrentamento da estiagem em todo o município, conforme publicação no Diário Oficial do Estado (DOE) desta terça-feira (28). Assinada pelo prefeito Alysson Bestene, a medida visa preparar a estrutura administrativa para um possível agravamento da seca e reduzir os impactos sobre a população.
Monitoramento aponta redução gradual dos níveis dos rios
De acordo com o decreto, a decisão baseia-se no monitoramento realizado pela Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil, que indica redução gradual dos níveis do Rio Acre, de seus afluentes e de outros mananciais usados para abastecimento humano, dessedentação animal e atividades produtivas. Nesta terça-feira (28), o manancial registrou 2,12 metros de profundidade. O documento ressalta que comunidades rurais já enfrentam diminuição da disponibilidade de água, com riscos ao abastecimento, à agricultura familiar e à pecuária, além do aumento da suscetibilidade a queimadas urbanas e rurais.
Objetivos e medidas previstas
Entre as ações previstas, o estado de alerta busca intensificar o monitoramento hidrológico, meteorológico e ambiental; fortalecer a preparação operacional dos órgãos municipais; ampliar a articulação entre as secretarias; e promover medidas voltadas à segurança hídrica, prevenção de queimadas e redução dos impactos sociais, econômicos e ambientais provocados pela estiagem. A Defesa Civil Municipal ficará responsável por acompanhar permanentemente as condições hidrológicas e meteorológicas, elaborar boletins técnicos, atualizar o cadastro de comunidades vulneráveis e coordenar o planejamento das ações de resposta em caso de agravamento.
Conforme o decreto, a Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil apresentará relatórios periódicos ao Gabinete do Prefeito contendo a evolução da estiagem, os impactos observados e, quando necessário, recomendará a revisão, manutenção ou revogação do estado de alerta, bem como a adoção de medidas administrativas adicionais. As secretarias municipais atuarão de forma integrada, priorizando o abastecimento de água para populações vulneráveis. A publicação autoriza ainda a mobilização de equipamentos e insumos, preparação de operações de abastecimento emergencial de água potável e reforço no combate a incêndios em vegetação.
Caráter preventivo e possibilidade de revogação
Apesar das medidas, o decreto ressalta que o estado de alerta tem caráter exclusivamente preventivo e de preparação administrativa. Não há, neste momento, reconhecimento oficial de desastre nem declaração de situação de emergência. O estado de alerta poderá ser revogado a qualquer tempo, antes do término do prazo de vigência, mediante ato do chefe do Poder Executivo Municipal, quando houver alteração das condições hidrológicas ou quando a evolução do cenário recomendar medidas administrativas mais adequadas.
Quase 40 dias sem chuva na capital
A ausência prolongada de chuvas em Rio Branco já preocupa a Defesa Civil Municipal. O órgão alerta para o agravamento do cenário nas próximas semanas, com a intensificação do período seco e a previsão de influência do fenômeno El Niño. A última chuva registrada na capital acreana ocorreu em 25 de julho, com 8,4 milímetros de precipitação. Foram quase 40 dias sem chuva.
Ao g1, o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, tenente-coronel Cláudio Falcão, explicou que o Rio Acre ainda apresenta uma cota mais confortável porque o primeiro semestre teve volume de chuva superior ao registrado em 2025. No entanto, esse cenário começa a mudar. "O rio está com uma cota melhor do que estava no ano passado justamente porque tivemos muita chuva no primeiro semestre. Mas a ausência de chuva já é sentida. Estamos nos aproximando de 40 dias sem registro de precipitação e a tendência para os próximos dias é piorar, agravando ainda mais a situação", afirmou.
Impactos além da redução dos rios
Segundo Falcão, Rio Branco ainda registra um dos maiores níveis entre as principais bacias monitoradas no estado, mas a seca já provoca impactos que vão além da redução do volume dos rios. "A gente vê toda a situação de seca e a crise hídrica se instalando tanto na zona urbana, com dificuldades de abastecimento, quanto na zona rural, onde a navegabilidade fica comprometida e até a água para consumo começa a ficar mais escassa", acrescentou.
Operação Estiagem em andamento
Diante do avanço da seca, a Defesa Civil informou que a Operação Estiagem já começou, inicialmente com apoio do Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb), responsável pelo abastecimento emergencial de comunidades afetadas pela falta de água. Falcão explicou que a expectativa é que a Defesa Civil passe a atuar com caminhões próprios nos próximos dias, após alinhamento com a prefeitura. "Ela já está em curso, mas ainda não estamos fazendo com os caminhões da Defesa Civil. O abastecimento começou de forma emergencial pelo Saerb. A expectativa é que, na próxima semana, a gente passe a atuar também com nossos próprios caminhões", afirmou. Além do fornecimento de água, o planejamento envolve o atendimento às comunidades rurais mais afetadas, onde a estiagem compromete a produção agrícola e reduz a renda das famílias.
El Niño e calor intensificam preocupações
O cenário também preocupa pesquisadores. A previsão de formação do fenômeno El Niño nos próximos meses aumenta a possibilidade de temperaturas mais elevadas e de uma seca mais intensa no Acre. O pesquisador Foster Brown explicou que a combinação entre calor e redução das chuvas favorece incêndios florestais, piora a qualidade do ar e amplia os impactos sobre a saúde da população e dos ecossistemas. "Nunca se repete exatamente, mas segue mais ou menos o que aconteceu em 2023 e 2024. Estamos entrando em uma fase em que a influência do El Niño tende a crescer. Com isso, a expectativa é de prolongamento da estação seca", afirmou.
Segundo a Defesa Civil, sinais típicos desse cenário já são observados, como ausência prolongada de chuva, ondas de calor, redução do nível dos rios e igarapés e diminuição da capacidade de reservação de açudes e represas.
Orientações e ações preventivas
Diante das previsões, os órgãos públicos reforçam o planejamento para minimizar os impactos da estiagem. A Defesa Civil encaminhou parecer técnico ao gabinete do prefeito solicitando a decretação de situação de alerta. O órgão também monitora comunidades rurais onde a crise hídrica se intensifica e prepara um levantamento das perdas na produção agrícola e pecuária.
O Ministério Público do Acre (MP-AC) orientou que órgãos estaduais e municipais antecipem medidas preventivas, incluindo sistemas de monitoramento e ações voltadas às populações mais vulneráveis. A recomendação à população é manter a hidratação, evitar exposição ao sol nos horários mais quentes e redobrar cuidados com crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.



