Um projeto ambiental financiado com recursos de multas aplicadas à Petrobras está recuperando 520 hectares de áreas degradadas na bacia do Rio Urucuia, no Noroeste de Minas Gerais. A região foi eternizada pelo escritor João Guimarães Rosa em seu romance "Grande Sertão: Veredas", que completa 70 anos em 2026. A iniciativa, chamada Projeto Pró-Águas Urucuia, é executada pelo Instituto Espinhaço sob mediação do Ministério Público Federal (MPF) e da Advocacia-Geral da União (AGU). O acordo judicial foi homologado entre 2022 e 2023, destinando os valores das multas ambientais da Petrobras para a restauração ecológica.
Recuperação em números
Do total de 520 hectares a serem recuperados, 364 hectares serão dedicados ao plantio de árvores nativas, enquanto 156 hectares receberão intervenções para controle de erosão e aumento da infiltração de água da chuva no solo. Essas ações visam recarregar os lençóis freáticos e restaurar nascentes. Segundo o MPF, cerca de 50 hectares já foram trabalhados. Durante uma inspeção técnica realizada pelo procurador da República Carlos Bruno Ferreira da Silva, constatou-se que 98% das mudas plantadas em uma propriedade às margens do Ribeirão da Ilha sobreviveram, um índice considerado elevado para a região. Espécies como jacarandá, cedro-rosa, angico e jenipapo foram escolhidas por serem nativas do Cerrado.
Vistoria e resultados
A inspeção técnica, coordenada pelo procurador Carlos Bruno Ferreira da Silva, percorreu diversas propriedades rurais. Foram verificados os cercamentos, a sanidade das mudas e as obras de terraceamento. O relatório do MPF indicou que os métodos adotados estão em conformidade com o plano de trabalho e que o Instituto Espinhaço tem cumprido os prazos. A taxa de sobrevivência de 98% superou as expectativas, já que a média em projetos similares no Cerrado fica entre 60% e 80%.
Processos ecológicos e cronograma
A recuperação vegetal também favorece a zoocoria, dispersão de sementes por aves e animais, ampliando a cobertura além das áreas cercadas e protegendo cursos d'água. O cronograma segue o clima regional: o período seco é usado para preparo do solo e instalação de cercas, enquanto o plantio ocorre nos meses chuvosos, entre outubro e novembro. As atividades de implementação e monitoramento devem se estender até junho de 2028.
Origem dos recursos
As multas ambientais aplicadas à Petrobras, decorrentes de infrações como vazamentos de petróleo, somam valores milionários. O acordo judicial, mediado pelo MPF e AGU, permitiu que esses recursos fossem direcionados à recuperação da bacia do Urucuia, em vez de irem para o fundo público geral. Essa destinação específica garante que a penalidade financeira se converta em benefício ambiental direto na região impactada.
Importância cultural e literária
Além do ganho ambiental, o projeto está intrinsecamente ligado à preservação do patrimônio cultural brasileiro. O distrito de Sagarana, onde as ações ocorrem, é uma referência na obra de Guimarães Rosa. "Grande Sertão: Veredas" completa 70 anos em 2026, e a região do Rio Urucuia é parte central da narrativa. O procurador Carlos Bruno Ferreira da Silva destacou: "As diligências confirmaram o progresso técnico e organizado do acordo, honrando tanto a preservação do meio ambiente quanto o legado histórico e cultural do sertão." O MPF ressalta que o trabalho não é apenas uma reparação ecológica, mas também a preservação de um patrimônio literário. "Grande Sertão: Veredas", publicado em 1956, é considerado uma obra-prima do modernismo brasileiro, conhecida por sua linguagem inovadora e pela profunda representação do sertão mineiro. O romance narra as aventuras de Riobaldo, um jagunço que percorre a região do Urucuia em busca de vingança e autoconhecimento. Sete décadas depois, o projeto de recuperação ambiental homenageia esse legado, perpetuando o cenário natural que inspirou o escritor.
Contexto e perspectivas
O Parque Nacional Grande Sertão Veredas, criado em 1989, abrange 230.671 hectares nos municípios de Chapada Gaúcha, Formoso e Arinos em Minas Gerais, além de Côcos na Bahia. O projeto Pró-Águas Urucuia reforça a proteção dessa área, unindo conservação ambiental e valorização da cultura sertaneja. Com a continuidade das ações até 2028, espera-se que a bacia do Urucuia recupere sua vitalidade, mantendo viva a paisagem que inspirou um dos maiores clássicos da literatura brasileira.



