Pirarucus com 400 filhotes viralizam e acendem alerta em MT
Pirarucus com 400 filhotes viralizam e acendem alerta em MT

Um vídeo que combina beleza e preocupação tomou conta das redes sociais na última semana. Gravado com drone em um alagado do Rio Teles Pires, em Itaúba (MT), ele mostra um casal de pirarucus (Arapaima gigas) nadando ao lado de aproximadamente 400 filhotes. O autor do registro é o pescador e influenciador Tiger Bilzerian, conhecido por documentar a fauna em expedições por rios brasileiros.

Segundo Bilzerian, os peixes adultos provavelmente passavam dos 100 quilos – tamanho típico da espécie, que pode ultrapassar dois metros de comprimento. “Eu sempre gravo a natureza nos detalhes que são imperceptíveis. Tenho feito vários registros de drone e capturas de peixes grandes”, afirmou.

Mas o que parece apenas um espetáculo da natureza também acende um sinal de alerta. De acordo com especialistas, a presença de uma família tão numerosa de pirarucus naquele trecho do Teles Pires é um indício claro do avanço de uma espécie exótica invasora – um problema capaz de comprometer a fauna nativa e o equilíbrio do ecossistema.

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Um favorito da Amazônia, mas invasor no Teles Pires

O pirarucu é um peixe nativo brasileiro, originalmente restrito a águas calmas e várzeas da baixada amazônica. No entanto, a distribuição natural da espécie sempre foi limitada por barreiras geográficas, como grandes corredeiras e cachoeiras, que impediam sua passagem para outras áreas da Bacia Amazônica.

Jean Vitule, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista em invasões biológicas, explica que a espécie não ultrapassava as cachoeiras do baixo e médio Tapajós e do Teles Pires. “Historicamente, ele habitava águas calmas e várzeas da baixada amazônica e não ultrapassava as grandes corredeiras e cachoeiras do baixo e médio Tapajós e Teles Pires. Como foi introduzido fora dessa área de distribuição histórica, ele é classificado como exótico invasor no alto Teles Pires”, afirma.

Embora o Rio Teles Pires integre a Bacia Amazônica, a região próxima a Itaúba está fora da área de ocorrência original da espécie. Portanto, a reprodução em larga escala vista no vídeo representa um risco para as espécies locais.

Como o pirarucu chegou a essa região?

Os pesquisadores ainda investigam os caminhos exatos da expansão, mas algumas hipóteses já são consideradas. As principais são:

  • Escapes acidentais de pisciculturas;
  • Introduções para pesca esportiva;
  • Descarte ilegal de exemplares criados em aquários;
  • Alterações ambientais provocadas por reservatórios de usinas hidrelétricas.

Segundo Vitule, a formação desses reservatórios eliminou barreiras naturais e transformou trechos antes dominados por corredeiras em águas lentas e paradas – um ambiente ideal para o pirarucu se instalar e se reproduzir.

Cuidado parental: a estratégia que garante o sucesso da espécie

Um dos fatores que tornam o pirarucu um invasor tão eficiente é o seu cuidado parental, claramente visível no vídeo. Ana Cláudia Torres Gonçalves, coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, destaca que esse comportamento dura cerca de três meses.

“Quem cuida da prole é o macho. Os filhotes nadam sobre a cabeça do pai, aprendendo a respirar e a se alimentar. Enquanto isso, a fêmea permanece próxima, afastando possíveis predadores”, explica a pesquisadora. Segundo ela, os adultos permanecem em águas rasas justamente para ensinar os filhotes a respirar e buscar alimento na vegetação das margens dos lagos.

Para Ana Cláudia, essa estratégia reprodutiva ajuda a explicar o sucesso da espécie quando invade novos ambientes. “O cuidado parental eficiente garante alta sobrevivência dos filhotes em relação às espécies nativas”, completa.

Impacto sobre a biodiversidade é severo

Como predador de topo da cadeia alimentar, o pirarucu pode consumir grandes quantidades de peixes nativos, alterar as cadeias tróficas, competir por recursos e reduzir a biodiversidade local. O perigo não é apenas teórico: uma análise liderada por pesquisadores da UFPR, publicada na revista Biological Reviews, mostrou que espécies invasoras apresentam, em média, taxas máximas de consumo de recursos 70% maiores do que as espécies nativas.

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Isso significa que a presença de um predador como o pirarucu pode provocar escassez de alimento para as espécies nativas e comprometer o equilíbrio ecológico. O estudo aponta que esse padrão é ainda mais evidente em organismos de água doce, o que explica por que os impactos são tão expressivos em rios invadidos.

O que pode ser feito? Ibama já autorizou controle em áreas invadidas

Diante do avanço da espécie fora da sua área original, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) publicou a Instrução Normativa nº 07/2026, que reconhece o pirarucu como espécie invasora nessas regiões. A norma autoriza a pesca, a captura e o abate da espécie sem limite de tamanho ou de cota, como medida de controle populacional.

Jean Vitule pondera, no entanto, que a pesca sozinha dificilmente elimina uma população já estabelecida. “Ela ajuda a reduzir a quantidade de indivíduos, mas é preciso combinar com outras medidas”, diz. Entre as ações recomendadas estão a fiscalização em pisciculturas para evitar novos escapes, o monitoramento científico, a educação ambiental e o incentivo à captura do pirarucu invasor, sem estimular a expansão comercial de longo prazo.

Ou seja, o vídeo que encantou milhões de pessoas ao mostrar um casal gigante protegendo centenas de filhotes também escancara um dos maiores desafios da conservação de ecossistemas no Brasil. A proliferação de uma espécie invasora pode alterar profundamente a dinâmica dos rios e exige ações coordenadas entre órgãos ambientais, cientistas e comunidades locais.