O município de Ilhéus, na Bahia, acaba de ganhar o primeiro centro de reabilitação do Brasil voltado exclusivamente para o mico-leão-de-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas), primata ameaçado de extinção encontrado apenas na Mata Atlântica baiana. A nova estrutura, instalada na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), foi criada para receber animais resgatados em situações de risco, oferecendo tratamento veterinário, reabilitação e posterior soltura em áreas adequadas para a espécie.
O centro é fruto de uma parceria entre o Bicho do Mato Instituto de Pesquisa e a organização britânica Tamarin Trust, que financia o projeto. A iniciativa surge em um momento crítico para a espécie, que perdeu quase metade de sua área de ocorrência nas últimas três décadas devido ao desmatamento, expansão urbana e mudanças no uso do solo. Uma análise populacional publicada em 2025 revela que o mico-leão-de-cara-dourada perdeu cerca de 42% de sua área de distribuição entre 1992 e 2024, passando de aproximadamente 22,5 mil km² para 13 mil km². No mesmo período, a população estimada caiu de cerca de 50 mil para 24 mil indivíduos, uma redução próxima de 60%.
Risco urbano
A criação da unidade responde ao aumento de ocorrências envolvendo micos em áreas urbanas e periurbanas da região. Com a redução e fragmentação das florestas, os animais passaram a se aproximar cada vez mais das cidades, ficando expostos a atropelamentos, ataques de cães domésticos e eletrocussões em redes elétricas. "O principal motivo é a fragmentação e a perda de hábitat das mais diversas formas", explica o médico veterinário Danilo Simonini Teixeira, professor da UESC e responsável pelo Núcleo de Atendimento e Pesquisa de Animais Silvestres (Napas). Segundo ele, as mudanças na paisagem da região vêm reduzindo as áreas disponíveis para a espécie. "Recentemente, tem ocorrido uma mudança para a retirada do cacau, uso de cacau em pleno sol, ou a troca desse cultivo por café, o que destrói a mata. Além disso, a expansão urbana, principalmente no sul de Ilhéus, está acabando com a mata de restinga", afirma.
Antes da inauguração do centro, os animais já recebiam atendimento veterinário pelo Napas, mas não havia uma estrutura voltada especificamente para conduzir todas as etapas necessárias até a reintrodução na natureza. "O centro permite realizar um trabalho completo, desde o tratamento clínico até a reintrodução bem-sucedida, como o caso de um indivíduo que chegou quase morto e, após 40 dias de internação e pesquisa de campo para localizar seu grupo original, foi solto com sucesso", destaca Danilo.
Como funciona a reabilitação
O processo começa com a identificação e retirada de grupos ou indivíduos em situação de risco. Levados para a unidade, os micos passam por avaliações veterinárias e comportamentais, permanecendo no local por um período estimado de três a quatro meses. Durante esse tempo, os pesquisadores também analisam as áreas florestais que possam receber os animais. Depois, a soltura é acompanhada por monitoramento em campo para verificar a adaptação dos grupos. "Com o uso de rádio-colar, conseguimos verificar se as populações estão sendo efetivamente restabelecidas", completa Danilo.
Cabruca e os 'jardineiros da floresta'
Um dos fatores que ajudam a explicar a permanência do mico-leão-de-cara-dourada no Sul da Bahia é a presença da cabruca, um sistema tradicional de cultivo em que os cacaueiros crescem sob a sombra de árvores nativas. Esse modelo é caracterizado por ser uma agrofloresta, integrando árvores com culturas agrícolas ou criação de animais, o que garante que características importantes da Mata Atlântica não sejam perdidas, oferecendo alimento, abrigo e corredores de deslocamento para a fauna. Segundo o biólogo Leonardo de Carvalho Oliveira, diretor científico do Bicho do Mato Instituto de Pesquisa e membro do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da UESC, a substituição das cabrucas por monoculturas e outras atividades agropecuárias está entre as principais ameaças atuais ao primata.
Além de seu valor simbólico, o mico desempenha um papel importante para a conservação do bioma. Como se alimenta principalmente de frutos, o primata dispersa sementes por grandes áreas e contribui diretamente para a regeneração das florestas. "Seu papel primordial no ecossistema é a dispersão de sementes. Ao consumir os frutos e descartar as sementes em locais diferentes, eles atuam como 'jardineiros da floresta', auxiliando na regeneração natural da Mata Atlântica", afirma o biólogo. Na natureza, esses animais vivem em grupos familiares de seis a oito indivíduos, têm hábitos diurnos e costumam dormir em ocos de árvores de grande porte. A dieta inclui frutos, insetos e pequenos vertebrados, encontrados principalmente em bromélias.
Por que Ilhéus?
A escolha da cidade não foi por acaso. Ilhéus está localizada no centro da área de ocorrência natural da espécie e mantém uma forte ligação histórica com sua conservação, tendo inclusive adotado o animal como símbolo oficial. "A escolha se deve ao fato de Ilhéus estar em uma área endêmica do mico-leão-de-cara-dourada. Com a expansão urbana e todos os problemas de perda de hábitat concentrados na região, não faria sentido o centro ser em outro lugar", afirma Danilo. Leonardo destaca ainda o papel da população nessa rede de proteção: "Chamamos de mico-leão-baiano hoje porque é uma espécie que está restrita ao estado da Bahia, e a sobrevivência dessa espécie depende do povo baiano em assumir essa espécie para o seu patrimônio".
Desafios futuros da conservação
Embora o novo centro represente um grande avanço, os pesquisadores ressaltam que a sobrevivência do mico-leão-de-cara-dourada depende de ações muito mais amplas, voltadas para a conservação de seu habitat. "Estamos perdendo muito hábitat e isolando populações. O município está expandindo em uma velocidade muito grande e criando pequenas ilhas de mata", alerta Leonardo Oliveira. O biólogo explica que a fragmentação força os animais a atravessarem rodovias, utilizarem fios elétricos como rota de deslocamento e entrarem em áreas urbanizadas. "Talvez a maior ação seja a conscientização. Se o humano pratica as ações que causam ameaça, é no humano que temos que trabalhar para que esses comportamentos cessem", finaliza.



