Pesquisadores brasileiros alertam que a circulação de doenças entre gatos domésticos e felinos silvestres, como jaguatiricas, gatos-do-mato, onças-pintadas e onças-pardas, representa uma ameaça crescente à fauna nativa. Duas revisões científicas, publicadas por especialistas do país, mostram que essas espécies podem compartilhar diversos agentes infecciosos, especialmente em regiões onde a expansão urbana avança sobre remanescentes de vegetação nativa.
Quais doenças estão envolvidas?
Entre os patógenos de maior preocupação estão a toxoplasmose, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, e os vírus da imunodeficiência felina (FIV), da leucemia felina (FeLV), da panleucopenia, além de herpesvírus e calicivírus. Todos já foram detectados em felinos silvestres no Brasil.
Segundo os pesquisadores, a transmissão nem sempre exige contato direto entre os animais. No caso da toxoplasmose, os felinos são os únicos hospedeiros definitivos do parasita e eliminam oocistos nas fezes, que podem contaminar solo, água e alimentos. Um único gato infectado pode eliminar milhões dessas estruturas resistentes no ambiente.
O que é spillover e por que está aumentando?
As revisões apontam que a perda e fragmentação de habitats, a expansão das cidades, a ocupação de áreas periurbanas e até grandes incêndios favorecem a aproximação entre animais domésticos e a fauna silvestre. Esse cenário aumenta o risco de spillover, quando um agente infeccioso salta de uma população para outra.
“Como as cidades estão avançando sobre as matas e o ambiente está cada vez mais fragmentado, o encontro entre o mundo doméstico e o silvestre está acontecendo com mais frequência, facilitando o que chamamos de spillover — que é o salto de um patógeno de uma população para outra”, afirma o biólogo Fernando Olaio.
Impacto na saúde pública e saúde única
Além do risco para os felinos, a toxoplasmose tem importância para a saúde pública. Os oocistos eliminados pelos gatos podem permanecer viáveis por longos períodos no ambiente, contaminando outros animais e até seres humanos. Isso reforça a necessidade de uma abordagem integrada de Saúde Única, que considera a saúde animal, humana e ambiental como partes de um mesmo sistema.
“No caso da toxoplasmose, por exemplo, os felinos são os únicos hospedeiros definitivos do parasita. O que isso significa na prática? Um único gato doméstico infectado pode eliminar milhões de oocistos (uma espécie de 'ovo' do parasita) nas fezes. Essas estruturas são extremamente resistentes e acabam contaminando o solo, os alimentos e a água. Uma onça pode se infectar apenas por beber água de um córrego contaminado, sem nunca ter visto o gato doméstico que deixou o parasita lá”, completa o especialista.
Medidas preventivas e lacunas de pesquisa
As revisões defendem medidas simples para reduzir o risco: manter os gatos domiciliados, evitar acesso livre às ruas, oferecer alimentação adequada, realizar acompanhamento veterinário e dar destino correto às fezes. Essas práticas diminuem tanto a exposição dos próprios gatos quanto a contaminação ambiental.
Apesar dos avanços, os autores ressaltam que ainda há poucas pesquisas com felinos silvestres em liberdade. Grande parte das informações disponíveis vem de animais em cativeiro, o que reforça a necessidade de ampliar os estudos para entender melhor como esses agentes circulam na natureza e seus impactos sobre espécies ameaçadas.



