Um novo vídeo gravado nesta segunda-feira (27) mostra um acampamento de garimpeiros ilegais escondido na região da comunidade Flexal, em Uiramutã, ao Norte de Roraima. Segundo moradores, o garimpo fica próximo da Cachoeira do Urucá, registrada em vídeo recente com a água densa e barrenta. A comunidade Flexal está localizada na Raposa Serra do Sol, terra indígena que tem sido alvo recorrente de garimpeiros ilegais. Conhecida por ser um dos principais atrativos naturais de Uiramutã, a Cachoeira do Urucá costuma ter águas cristalinas e de tom esverdeado.
Operação de fiscalização e métodos dos invasores
As imagens foram registradas logo após os garimpeiros esconderem equipamentos e maquinários na mata e enviadas à Rede Amazônica. O acesso à área de exploração, localizada próxima à comunidade Urucá, ocorre pela rodovia RR-171. Em nota, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informou que "acompanha as informações sobre a retomada de atividades de garimpo ilegal na região do Urucá/Urucazinho". O Ibama disse que o caso está "em apuração" e que articula com o Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal (PF) e a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) a construção de um plano integrado de enfrentamento ao garimpo ilegal. A PF informou que há uma investigação em andamento sobre os fatos e que não comentaria em razão do sigilo inerente das apurações.
Ao g1, um morador da comunidade Flexal, que preferiu não se identificar, relatou como os invasores conseguem escapar das operações de controle ambiental. "Eles enterram o motor. A fiscalização passa por cima e não acha o maquinário porque está enterrado. Quando a fiscalização vai embora, eles desenterram e continuam trabalhando", detalhou o morador. O governo de Roraima declarou que o garimpo ilegal e a consequente poluição ambiental em terras indígenas são de jurisdição federal. Dessa forma, a fiscalização e a investigação do caso cabem aos órgãos da União. O Conselho Indígena de Roraima (CIR) informou que acompanha a situação e que o departamento jurídico da organização vai notificar a Funai, a PF e o Ibama sobre o crime ambiental.
Degradação da cachoeira e impactos ambientais
No último sábado (24), o CIR e a Defesa Civil de Uiramutã divulgaram um vídeo que mostra a água da cachoeira do Urucá densa e barrenta. Segundo as organizações e moradores da região, a poluição ocorre por conta do crescimento de garimpos ilegais instalados no território. A queda d'água se forma a partir do igarapé Urucá e deságua no rio Cotingo. O acesso ao ponto turístico ocorre pela rodovia RR-171, no trajeto para a comunidade Flexal.
Ao g1, um morador da comunidade, que preferiu não se identificar, relatou a destruição na área. "É muito triste, de partir o coração. Maquinários do garimpo acima da cachoeira destroem a serra e jogam isso aí na cachoeira", lamentou. O morador também contou que os invasores conseguem escapar das operações de controle ambiental por meio de informantes. "Já houve outras denúncias. Mas, quando a fiscalização vem, eles são avisados e enterram os motores usados no garimpo", afirmou. Os garimpeiros utilizam métodos destrutivos na área, como uso de explosivos e bombas para quebrar rochas nas serras. Nos leitos dos rios, eles aplicam mercúrio para separar o ouro dos sedimentos, o que contamina a água e os peixes consumidos pelas comunidades da região.
Histórico de invasão e danos ambientais
A contaminação do igarapé Urucá é um problema já conhecido e documentado na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Lideranças indígenas já denunciaram a presença de pelo menos 500 invasores no território. A comunidade Urucá figura entre as mais atingidas pela exploração, ao lado de Napoleão, Tarame, Raposa I e Raposa II. O g1 documentou que, em 2025, a Prefeitura de Uiramutã já havia alertado as autoridades federais. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo enviou ofícios à Funai e ao MPF com relatos sobre o assoreamento do igarapé Urucá, a alteração do curso da água e a perda da vegetação marginal.
Além do impacto ambiental, o CIR já havia alertado para os danos sociais. As denúncias incluem ameaças a moradores, contaminação dos rios e o aliciamento de jovens indígenas, que são submetidos a condições de trabalho degradantes em acampamentos ilegais. Segundo o morador, a situação é recorrente e as autoridades federais ainda não conseguiram conter a exploração ilegal.



