O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, já começa a se manifestar no Brasil. No interior de São Paulo, diferentemente das regiões Norte, Nordeste e Sul, os efeitos não são tão severos, mas ainda assim significativos. Segundo pesquisadores da Esalq-USP e do Inpe, a região de Piracicaba deve enfrentar ondas de calor mais frequentes e chuvas irregulares, com impactos diretos na agricultura e no dia a dia da população.
Impactos na agricultura da região de Piracicaba
A produção de cana-de-açúcar na região de Piracicaba tende a se beneficiar com o El Niño, enquanto o setor de hortaliças deve ser prejudicado. O professor e pesquisador Fábio Marin, do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), explica: “Para nossa região, por se tratar de uma zona de transição, os impactos do El Niño não são tão acentuados como se espera para o Rio Grande do Sul e para as Regiões Norte e Nordeste. Em anos de El Niño forte, temos normalmente uma elevação na produção de cana na região, com benefícios também para as pastagens e demais lavouras, trazendo, no geral, benefícios aos produtores”.
Marin alerta que as projeções indicam temperatura até 2 °C acima da média, elevando a demanda hídrica e os desafios de manejo na horticultura. “O impacto mais negativo fica por conta das hortaliças, que sofrem com o excesso de umidade e o forte calor, com possível impacto nos preços durante o verão 26/27”, afirma. O agrometeorologista e especialista em modelagem de sistemas agrícolas destaca que o principal diferencial de 2026 deve ser a temperatura.
Ondas de calor e instabilidade climática
O climatologista Paulo Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do Comitê Científico Conjunto do Programa Mundial de Pesquisa Climática (WCRP-JSC), afirma que o aumento global da temperatura do ar, do mar e dos continentes intensifica a instabilidade atmosférica. “Isso significa que as perturbações atmosféricas se tornam mais intensas e frequentes sobre todos os continentes. O interior paulista não é exceção. Com o evoluir do corrente evento El Niño-Oscilação Sul, com razão denominado de Super El Niño, as cidades e o campo das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil devem se preparar para a ocorrência de precipitações intensas e ondas de calor”, alerta. Ele acrescenta que a sobreposição com o El Niño potencializa os extremos climáticos, como ocorrido em 2024 com secas extremas na Amazônia e chuvas intensas no Rio Grande do Sul e São Paulo.
O pesquisador Marcelo Seluchi, coordenador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ressalta que o fenômeno se manifesta em São Paulo por meio de sistemas extremos de difícil previsibilidade. “Ao contrário do Norte, fortemente atingido pela seca, e do Sul, mais vulnerável a inundações, São Paulo não possui um padrão fixo de chuvas sob a influência do El Niño, alternando em seu histórico tanto períodos de fortes cheias quanto de secas severas.” Seluchi indica que o efeito mais consistente e preocupante no interior paulista é o aumento na frequência das ondas de calor, fator que intensifica a evaporação e eleva a pressão sobre os recursos hídricos e o sistema elétrico.
Previsões para 2026-2027
Carlos Afonso Nobre, pesquisador do Cemaden e professor no MBA Internacional em Emergências Climáticas da Esalq-USP, destaca que as previsões dos órgãos científicos apontam que o El Niño alcançará o pico a partir de setembro de 2026. “A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) nos Estados Unidos, na Europa o ECMWF, a Organização Meteorológica Mundial, e aqui no Brasil o Inpe e o Cemaden, todos estão prevendo que esse El Niño vai atingir uma força muito grande, talvez um dos mais fortes dos últimos 100 anos”, afirmou. Nobre indica que o fenômeno deve durar até março e abril de 2027, e que as chuvas fortes no Rio Grande do Sul nos últimos dias já estão associadas a ele. “No Sudeste, vamos nos preparar, principalmente, para as ondas de calor e, às vezes, pancadas fortes de chuva”, acrescenta.
Medidas de adaptação necessárias
Paulo Nobre explica que a adaptação a extremos climáticos requer ações sistemáticas. Entre as iniciativas, ele lista: desassoreamento de leitos de rios e do sistema de coleta de águas pluviais; replantio de matas ciliares em todos os cursos d’água; aumento da permeabilidade das ruas e calçadas (cidades-esponja); arborização de ruas e praças, com locais públicos para refrescamento; instrumentação de guarnições do Corpo de Bombeiros; reflorestamento de encostas e topos de morros; e criação de cinturões verdes ao redor das cidades. “Estas são apenas algumas ações dentro de uma visão holística de relações socioeconômico-naturais, as quais precisam ser compreendidas como desejadas e mandatórias, assim como se tornou o cinto de segurança em cada automóvel”, argumenta.



