Cágado amazônico pitiú entra na lista de espécies ameaçadas de extinção
Cágado amazônico pitiú entra em lista de espécies ameaçadas

O pitiú (Podocnemis sextuberculata), também conhecido como iaçá, perdeu mais de 50% de sua população no oeste do Pará e no estado do Amazonas, o que levou à sua inclusão na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção na categoria "Em Perigo". A nova classificação acende um alerta para a conservação da espécie, que enfrenta ameaças predominantemente antrópicas.

Principais ameaças e declínio populacional

Segundo Raphael Alves Fonseca, analista ambiental do Ibama e coordenador do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Quelônios Amazônicos, a captura continua sendo a principal ameaça, mas outros fatores também contribuem para o declínio. "Outros fatores colaboraram, como perda de habitat e degradação ambiental, principalmente em áreas de nidificação — onde constroem seus ninhos, botam seus ovos e criam seus filhotes. Por conta desses fatores, muitas populações entraram em declínio, como, por exemplo, na bacia do Rio Tapajós", explica o pesquisador.

Mesmo com a nova classificação, ainda não é possível estimar quantos indivíduos existem na natureza. De acordo com o especialista, esse tipo de levantamento exige estudos populacionais em toda a Amazônia. O que já foi constatado é a redução das populações em diferentes localidades onde há monitoramento reprodutivo da espécie.

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Variação regional e áreas protegidas

O declínio do iaçá não ocorre de forma homogênea em toda sua área de distribuição. Enquanto algumas regiões registram redução populacional, outras permanecem estáveis ou apresentam tendência de crescimento. Esse cenário está diretamente relacionado ao estado de conservação dos ambientes. Regiões como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e a Reserva Biológica (Rebio) Abufari, unidades de conservação federal e estadual que são referência na proteção da espécie, ainda mantêm populações preservadas graças à boa qualidade ambiental.

"A maior ameaça para a espécie, na visão de especialistas, são as alterações de regime hídrico, que impactam negativamente o sucesso reprodutivo da espécie. Locais onde a pressão de captura não é controlada também causam declínio populacional", acrescenta Fonseca. O pesquisador ainda menciona que existem indícios de que o iaçá seja mais sensível do que outros quelônios amazônicos à contaminação da água por metais pesados e agrotóxicos, embora essa hipótese ainda necessite de confirmação científica.

Importância ecológica e implicações da listagem

O pitiú desempenha funções vitais para os ecossistemas aquáticos: alimenta-se de matéria orgânica vegetal, integra a cadeia alimentar como presa para peixes, jacarés e aves, especialmente nos primeiros estágios de vida, e pode atuar na dispersão de sementes e como indicador da qualidade ambiental dos rios. A entrada na lista nacional de ameaçadas reforça a necessidade de ampliar as ações voltadas à sua recuperação.

Na prática, porém, a mudança não cria novas restrições ao uso do animal. O consumo, o comércio e o manejo do iaçá já eram proibidos antes mesmo da reclassificação, afirma Raphael. Atualmente, apenas o tracajá (Podocnemis unifilis) e a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) podem ser criados para fins comerciais por criadores licenciados ou em sistemas comunitários autorizados. Além disso, o iaçá já é contemplado por quatro ações específicas no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Quelônios Amazônicos, incluindo ampliação do monitoramento e proteção, redução dos impactos da poluição, hidrelétricas e mudanças climáticas.

Vulnerabilidade comparativa

Na avaliação do especialista, o iaçá corre hoje um risco maior de extinção do que outras espécies do mesmo gênero, como o tracajá e a tartaruga-da-amazônia. Isso ocorre porque sua área de distribuição é mais restrita e a espécie apresenta maior sensibilidade à pressão de captura e às alterações ambientais, especialmente mudanças climáticas e degradação da qualidade da água. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar as medidas de conservação nas áreas onde a espécie ocorre, com ações voltadas à proteção dos habitats, ao controle da captura e ao monitoramento das populações.

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