Pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Ambiente e Desenvolvimento da Univates (RS) e do Instituto de Geociências da UFRGS publicaram um estudo na revista Acta Amazonica nesta sexta-feira (27) mostrando que sementes que passam pelo trato digestivo de antas germinam mais rápido e com maior eficiência. A pesquisa analisou seis espécies nativas comuns na dieta do animal: cajá-da-mata, mirindibá-do-cerrado, angelim-favela, sete-cascas, goiabinha-do-mato e jenipapo.
Os resultados indicam que a taxa de germinação de algumas espécies chegou a 89% após a passagem pelo intestino da anta. Em três delas, as sementes brotaram até duas vezes mais rápido do que aquelas que caem diretamente das árvores. A coleta de fezes foi realizada pela bióloga Lucirene Pinto entre janeiro de 2021 e dezembro de 2022, em uma área de preservação permanente próxima a uma usina hidrelétrica em Mato Grosso, na transição entre Amazônia e Cerrado. Ela encontrou sementes viáveis em 88% das 140 latrinas analisadas.
O biólogo Mateus Marques Pires, coautor do artigo, explica que as sementes são expostas a tratamentos químico (microrganismos e enzimas) e físico (maceração) no intestino das antas. O estudo quantificou com precisão a aceleração da germinação, algo que não havia sido feito antes, embora pesquisas sobre dispersão de sementes por antas existam desde os anos 1980.
Os pesquisadores destacam que a anta, maior mamífero terrestre da América do Sul, é uma aliada natural na regeneração de florestas degradadas. Ao defecar longe das árvores-mãe, o animal favorece o crescimento de novas plântulas, reduzindo a competição e espalhando sementes a longas distâncias. A identificação das espécies que germinam melhor após a passagem pelo trato digestivo pode orientar projetos de restauração ecológica.
Em locais onde as antas foram extintas, a pesquisa sugere que a ranhura manual das sementes, simulando a abrasão intestinal, pode ser uma estratégia complementar. O estudo também alerta que a extinção local da anta prejudicaria o recrutamento de plantas e a capacidade de recuperação natural de florestas degradadas.



