O primeiro dia do julgamento dos policiais militares acusados da morte do empresário Vinícius Gritzbach e do motorista de aplicativo Celso Novais, ocorrido em 8 de novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, foi marcado por intenso confronto entre acusação e defesa. O promotor Rodrigo Merli Antunes foi repreendido pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo após trocar ofensas com os advogados dos réus, que ameaçaram abandonar o plenário.
Bate-boca entre promotor e defesa
A tensão escalou durante o depoimento do perito criminal Leandro, responsável pela análise dos vestígios. O advogado Renan Canto questionava a testemunha quando foi interrompido pelo promotor Antunes, que o acusou de não ter lido o processo. O advogado protestou, e o promotor rebateu dizendo que ele conversava com "bandido" e "matador de aluguel". Os outros defensores se levantaram para apoiar o colega, enquanto Antunes repetia "blá-blá-blá".
"O sujeito é folgado", disse o advogado Claudio Dalledone. "Acredito que não vai ter júri com esse sujeito aqui", acrescentou, chamando o promotor de cínico e descortez. Renan Canto chegou a caminhar em direção à porta, ameaçando abandonar o plenário caso o promotor não fosse repreendido.
Após os protestos, o juiz Rodrigo Tellini determinou que o promotor não transitasse próximo aos advogados durante os questionamentos. "O Ministério Público faz um jogo de cena para que o júri não termine", afirmou Dalledone em coletiva de imprensa. "O promotor quer dissolver o conselho."
Antunes rebateu: "Quem disse que ia abandonar o plenário foi a defesa. Isso demonstra que eles pretendem não levar o julgamento adiante, qualquer incidente vão usar pra se vitimizar." Em provocação, completou: "Essa banca conhecida de advogados, eles parecem leões na imprensa, mas aqui se mostraram gatinhos."
Depoimentos das vítimas
O júri popular começou com o depoimento de William Souza Santos, funcionário do aeroporto que trabalhava no local há sete anos. Ele foi atingido em três dedos da mão durante o ataque. William afirmou que não conhecia nenhuma das vítimas nem conseguiu identificar os atiradores. "Reparei quando o veículo parou e, logo em seguida, ouvi um barulho que parecia rojão", relatou.
A segunda testemunha foi Samara, gerente de TI que retornava de Salvador. Ela foi baleada na barriga e contou: "Eu estava bem atrás, só ouvi os barulhos dos tiros e depois os gritos. Não vi o carro nem as pessoas que desceram atirando. Eram muitos tiros, na hora achei um barulho agudo." Samara disse ter feito acompanhamento psicológico, mas que atualmente está bem.
Simone Novais, viúva do motorista Celso, depôs emocionada. Ela soube do ataque por um amigo e depois recebeu um vídeo do marido dentro da ambulância: "Levei um tiro, estou dentro da ambulância." Foi a última comunicação. "Não estamos conseguindo seguir com a vida, me preocupa especialmente o filho de 15 anos, eles eram muito apegados", afirmou. Ela contou que a vida financeira ficou "uma bagunça" após a morte. O filho mais novo chegou a chacoalhar o pai pedindo: "Levanta, levanta".
Perícia aponta 27 disparos de fuzil
O perito criminal Leandro afirmou que a perícia realizou escaneamento do local e identificou 27 disparos de fuzil — 21 de calibre 7.62 e seis de 5.56. Um dos tiros atingiu uma área interna do aeroporto a mais de 80 metros de distância e poderia ter acertado uma pessoa na cabeça. A perícia também verificou danos em um ônibus da Guarda Civil Metropolitana, possivelmente causados por ricochete.
O perito foi questionado pela defesa, que apontou suposta contaminação na coleta de vestígios. Dalledone classificou o encontro entre perito e promotor como "imoral" e "jogral", afirmando que, em 31 anos de tribunal do júri, é "um dos casos mais escandalosos, que expõe banda podre da PC".
Testemunhas subsequentes
Danilo Lima Silva, ex-motorista de Gritzbach por dois anos e meio, disse que o empresário andava com veículo blindagem nível 5 e dois carros tinham luzes de sirene, como viatura. Afirmou que os carros eram "meio que comunitários" e que já ouviu dizer que foram achados rastreadores nos veículos emprestados. No dia do ataque, viu dois homens descerem do carro para atirar, sendo um deles "bem alto".
O capitão Vinicius Gomes de Campos Cajuela, da corregedoria da PM, também foi ouvido.
Os réus e o crime
Os três policiais militares acusados são: Fernando Genauro da Silva (tenente da PM, acusado de dirigir o carro da fuga), Denis Antonio Martins (cabo da PM, apontado como atirador) e Ruan Silva Rodrigues (soldado, também atirador). Eles respondem por homicídio qualificado de Gritzbach e Celso Novais, além de duas tentativas de homicídio. A defesa alega inocência e sustenta que houve "direcionamento investigativo voltado à sua incriminação, sem a devida apuração de fatos e circunstâncias envolvendo outros investigados".
Gritzbach foi executado com tiros de fuzil na área de desembarque do aeroporto. O motorista Celso, que não o conhecia, foi atingido por um disparo e morreu. Antes de ser morto, o empresário havia delatado ao Judiciário um esquema de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro envolvendo PCC, Comando Vermelho e policiais corruptos, em troca de redução de pena.
Outros réus e segurança
Kauê do Amaral Coelho, apontado como "olheiro", está foragido. Diego dos Santos Amaral e Emilio Carlos Gongorra Castilho, apontados como mandantes, também estão foragidos, e a ação contra eles está suspensa.
O Fórum de Guarulhos adotou esquema especial de segurança, com suspensão de outras audiências, bloqueio temporário e apoio de grupos táticos. A sala do júri tem capacidade para 80 pessoas, sem entrada de público sem vínculo direto. O julgamento deve durar cinco dias, com 21 testemunhas previstas.



