A Polícia Civil de João Pinheiro, no Noroeste de Minas, concluiu o inquérito que investigava a morte de Manuel Cardoso de Brito, de 68 anos, após uma pinça cirúrgica ter sido esquecida dentro de seu abdômen durante uma cirurgia no Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares. Três profissionais de saúde foram indiciados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. O paciente morreu na véspera de Natal de 2025, depois de passar por dois procedimentos cirúrgicos na unidade.
Descoberta do erro e indiciamentos
Durante a internação, uma tomografia revelou que o instrumento havia sido esquecido no abdômen do paciente no primeiro procedimento. O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e também foi alvo de uma CPI na Câmara Municipal. Após a investigação, o delegado responsável, Cleto Portela Pereira, indiciou o médico cirurgião Marcus Vinicius Meneses da Silva, o instrumentador cirúrgico Lucas Fillipi Alves de Souza e a médica auxiliar Barbara Furtado de Noronha.
O g1 procurou o advogado Joaquim Rocha Júnior, que representa os médicos Marcus e Bárbara, que se disponibilizou a conceder entrevista, mas não retornou até a última atualização. A defesa de Lucas Fillipi não foi localizada. A reportagem também contatou o Município de João Pinheiro, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, para se manifestar sobre o indiciamento, mas não houve retorno. O inquérito foi protocolado na 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da comarca e aguarda parecer do Ministério Público.
Família se manifesta
A família de Manuel, por meio do advogado Iuri Evangelista, agradeceu ao trabalho da Polícia Civil "que de forma imparcial realizou um trabalho sério e com profissionalismo na busca de esclarecer todos os fatos relativo ao caso".
Investigação aponta imperícia
Segundo a investigação, houve imperícia dos profissionais pela inobservância de protocolos essenciais para a segurança cirúrgica, como a revisão da cavidade abdominal antes do fechamento e a conferência do material utilizado. Consta no inquérito que Marcus Vinicius, cirurgião principal, tinha a responsabilidade final pela verificação da cavidade. O instrumentador era responsável pelo controle dos instrumentos, e a médica auxiliar compartilhava o dever de fiscalização do campo operatório.
"O instrumentador cirúrgico, a princípio, falou que não houve essa contagem em razão da multiplicidade, do número grande de instrumentos cirúrgicos. O médico alegou que confiou no instrumentador. Mas, enfim, a responsabilidade por verificar antes da finalização do procedimento cirúrgico, a contagem dos materiais e o local no qual foi realizada a cirurgia, é responsabilidade de todos eles", afirmou o delegado à TV Integração.
O homicídio culposo por imperícia ocorre quando a morte é causada por conduta sem intenção de matar, mas com violação do dever de cuidado, conforme o art. 121, § 3º, do Código Penal.
Pinça encontrada seis dias após cirurgia
Manuel foi submetido a uma cirurgia de urgência em 5 de dezembro de 2025 para tratar uma úlcera gástrica perfurada. Durante a recuperação, apresentou piora clínica. No dia 11 de dezembro, exames de imagem identificaram a presença de uma pinça cirúrgica metálica de aproximadamente 14 centímetros esquecida na cavidade abdominal desde o primeiro procedimento.
"O paciente apresentou piora clínica significativa, com rebaixamento do nível de consciência, sendo solicitada tomografia de crânio para investigação de possível AVC. Durante investigação diagnóstica complementar, foi realizada tomografia de abdome, que identificou a presença de corpo estranho metálico retido na cavidade abdominal desde a primeira cirurgia", diz trecho do inquérito.
Diante da descoberta, o paciente precisou passar por uma segunda cirurgia de urgência para retirada do instrumento e controle de foco infeccioso. Contudo, o quadro evoluiu para "choque séptico pós-operatório" e o paciente permaneceu internado em UTI até o óbito, em 24 de dezembro.
Laudo pericial aponta concausa
O laudo pericial usado pela Polícia Civil apontou que não é possível afirmar com certeza absoluta que Manuel sobreviveria à doença de base caso a pinça não tivesse sido esquecida. Mas o médico legista indicou que o erro atuou como uma "concausa superveniente agravante", contribuindo para o desfecho fatal. A presença do corpo estranho favoreceu a formação de abscesso na cavidade abdominal e tornou necessária nova intervenção cirúrgica em paciente já em estado grave.
O perito explicou que a segunda operação funcionou como um "segundo golpe", provocando Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) amplificada, levando à falência de múltiplos órgãos. A necessidade da relaparotomia aumentou o consumo das reservas fisiológicas do paciente, agravando o quadro e reduzindo significativamente as chances de recuperação.
Na conclusão, o perito afirma que o esquecimento da pinça configurou quebra de protocolos universais de cirurgia segura e que o segundo procedimento, realizado exclusivamente para retirar o instrumento, atuou como fator concorrente para a morte. "O evento adverso reduziu, de forma drástica, qualquer chance (teoria da perda de uma chance) que o paciente possuía de se recuperar do insulto séptico primário", concluiu o legista Frederico Jardim Pfeilsticker.
Paciente ficou 13 dias internado
De acordo com o Boletim de Ocorrência, o paciente permaneceu dois dias na UTI e depois foi transferido para o quarto. Durante a internação, o filho Samuel Cardoso Rezende de Brito percebeu que o pai estava com dificuldade de se alimentar. A cuidadora também relatou sinais de dor e sonolência excessiva. No dia 11 de dezembro, uma tomografia foi feita e, segundo os familiares, profissionais chegaram apressados ao quarto e levaram o paciente para uma nova cirurgia, sem explicação ou autorização formal da família.
"Eles voltaram e buscaram ele pra fazer a cirurgia, aí nessa cirurgia eles não comunicaram e nem deixaram a cuidadora que estava com ele acompanhar. Não chegou a pedir ela para ir, nem para comunicar a família", contou o serralheiro.
Após a segunda cirurgia, Manuel voltou para a UTI. Ele ficou 13 dias internado, mas não resistiu. O filho construiu a cruz do túmulo do pai. Na certidão de óbito, a causa da morte foi registrada como natural, apontando choque séptico e úlcera gástrica perfurada. No entanto, a família e o advogado contestaram a versão. Samuel acredita que o pai poderia estar vivo se não fosse o suposto erro médico: "Eu fiquei sem chão. Se isso não tivesse acontecido com ele, eu garanto que meu pai tinha passado o Natal e mais um Ano Novo com a gente", lamentou.



