Duas novas denúncias de assédio sexual contra Paulo Silvio dos Santos, ex-chefe de arbitragem da Federação Cearense de Futebol (FCF), chegaram à Polícia Civil. Ambas as vítimas trabalharam em uma concessionária de motos em Fortaleza, onde ele exercia cargo de chefia entre 2014 e 2018. Uma delas procurou a polícia recentemente; a outra registrou boletim de ocorrência nesta semana.
Uma das vítimas, que atuava como recepcionista, relatou que Paulo Silvio fazia investidas com promessas de benefícios. “Se você aceitar um sim, se você aceitar sair comigo, se você aceitar ser cuidada, você vai ter uma vida melhor. Eu posso trocar teu celular pelo celular do ano, pelo modelo tal. Eu vi que você anda de ônibus, eu posso te dar uma moto”, disse ela em depoimento. A mulher, que terá a identidade preservada, contou que chegou a escrever uma carta de demissão na época, mencionando o assédio e os tratamentos inadequados. “Eu pensei que se eu não tivesse a coragem de fazer isso naquela época, eu estaria deixando que outras pessoas passassem pela mesma situação.” O boletim de ocorrência original, no entanto, foi arquivado.
A segunda ex-funcionária afirmou no boletim de ocorrência, obtido pela TV Verdes Mares, que recebeu convites insistentes para sair com o então chefe, sempre com oferta de vantagens. Com as recusas, passou a sofrer prejuízos no ambiente de trabalho, o que a levou a procurar a polícia para formalizar a queixa. A corporação não informou se os casos serão investigados em conjunto com o inquérito anterior.
Inquérito e indiciamento
As denúncias das duas mulheres se juntam aos casos de quatro árbitras que procuraram a FCF no início de julho e registraram boletins de ocorrência no dia 14. O inquérito, já concluído, resultou no indiciamento do ex-chefe da Comissão de Arbitragem por assédio sexual e importunação sexual. A Polícia Civil encaminhou o procedimento ao Poder Judiciário. Uma das árbitras também relatou tentativa de estupro, mas o indiciamento não incluiu esse crime.
O indiciamento indica que a polícia considera haver indícios suficientes de autoria. Agora, o Ministério Público do Ceará vai analisar o caso. Se concordar, apresentará denúncia formal; se a Justiça aceitar, Paulo Silvio se tornará réu. O investigado, que nega as acusações, não retornou ao cargo desde que tirou licença de 30 dias.
Relatos das árbitras
Os episódios narrados pelas árbitras teriam ocorrido a partir de 2018, durante o curso de formação e após o início da carreira delas. Paulo Silvio, como presidente da Comissão, tinha a prerrogativa de definir as escalas dos jogos, o que, segundo as denunciantes, era usado como forma de pressão.
Uma das árbitras contou que, no final de 2022, começou a receber convites para festas ou para ir à casa de Paulo Silvio em horários “inoportunos”, por volta das 23h. Ele teria, inclusive, pedido a outras pessoas que intercedessem por ele. “Eu, como aluna da federação, por que vou para a casa de um presidente de comissão?”, questionou. Após começar a namorar, os convites pararam e ela foi “escanteada” nas escalações. A árbitra deixou a arbitragem em 2025.
Outra declarante relatou que ingressou na federação em 2018 e recebia convites para ir à casa dele “tomar vinho”. Em um encontro com mais cinco pessoas, após o restaurante fechar, o grupo foi a um motel com piscina. Lá, Paulo Silvio a teria chamado para o quarto, tentado agarrá-la e, mesmo com a recusa, insistido e entrado no banheiro onde ela estava. Ela conseguiu deixar o local e ir para casa. Depois disso, sua carreira na arbitragem estagnou. Duas outras mulheres também fizeram denúncias semelhantes.
Medidas da FCF
A Federação Cearense de Futebol abriu uma sindicância administrativa para apurar os fatos. A investigação interna está sendo conduzida por uma comissão de três pessoas, presidida por uma mulher. Não há prazo para conclusão. Segundo apuração do g1, a comissão está ouvindo testemunhas; Paulo Silvio ainda não foi ouvido.
O diretor jurídico da FCF, Eugênio Vasques, afirmou que, mesmo com o fim da licença de 30 dias, o investigado não voltará ao cargo enquanto as investigações estiverem em andamento. Em nota, a federação informou que tomou as seguintes providências:
- preservação de documentos físicos e eletrônicos relacionados aos fatos;
- proibição de qualquer contato do investigado com as denunciantes e testemunhas;
- vedação de retaliação, intimidação, constrangimento ou prejuízo profissional.
Após a conclusão da sindicância, a comissão emitirá um relatório final que pode recomendar a demissão de Paulo Silvio e o envio do caso à Comissão de Ética da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que pode aplicar punições desportivas.
Defesa nega acusações
Em nota, a defesa de Paulo Silvio negou as acusações e afirmou que ele jamais praticou qualquer conduta de assédio sexual, importunação sexual, violência sexual ou outro ato ilícito. A defesa destacou que as declarações divulgadas são versões unilaterais e pediu respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência. Também manifestou preocupação com a divulgação pública das alegações antes da oitiva do investigado. O g1 chegou a contatar Paulo Silvio, que disse não ter recebido informações sobre o indiciamento.



