No nono dia do julgamento do caso Henry Borel, a ré Monique Medeiros, mãe do menino, prestou depoimento e afirmou que foi dopada pelo ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Jairinho, na noite da morte do filho. Segundo ela, após tomar um comprimido dado por ele, dormiu e só foi acordada por Jairinho quando Henry já estava morto. Ao descrever o estado do filho na madrugada de 8 de março de 2021, Monique disse: "Ele estava com a barriga para cima e o pé gelado, e olhando para o nada".
Alegações de doping e traição
Monique afirmou que acredita ter sido dopada por Jairinho para que ele pudesse conversar com uma amante. "Jairo sempre me dava comprimidos à noite. Vi ele macerando um comprimido na minha taça de vinho. Ele fazia questão de me fazer dormir para eu não ver que ele tinha uma outra pessoa", declarou. O interrogatório começou por volta das 10h30 desta terça-feira (2). Durante o depoimento, ela também relatou episódios de agressão supostamente cometidos por Jairinho contra Henry desde o início do relacionamento do casal.
Episódios de violência
Ao falar do primeiro dia de aula do filho, Monique começou a chorar, o que se repetiu em vários momentos. Segundo ela, em novembro de 2020, cinco meses antes da morte, houve um episódio em que Jairinho teria dado uma 'banda' e uma 'moca' na criança. "O Henry saiu correndo da sala e disse: 'Tio Jairinho me deu uma banda, me deu uma moca, falando que eu era bobalhão e mimado'. Ele disse que tinha só segurado ele pelos braços, passou a perna e ele nem tinha caído", contou Monique. Ela disse que não conseguia imaginar que Jairinho seria capaz de cometer agressões contra seu filho. Após esses episódios, Henry passou por mudanças de personalidade, tornando-se mais triste, vomitando e tremendo na presença de Jairinho. "Se eu tivesse suspeita de tortura, agressão de qualquer coisa, eu não teria continuado nesse relacionamento", afirmou.
Relação entre Henry e Jairinho
De acordo com Monique, Henry inicialmente gostou de Jairinho, que o presenteava. No entanto, ela percebeu uma mudança após um episódio em janeiro, quando Jairinho teria dado um "abraço apertado" no menino. "O Leniel (pai da criança) disse que o Henry relatou um abraço apertado do Jairinho. 'Eu quero que você fale para ele que não quero abraço no meu filho', e eu acatei o pedido do pai. Chamei o Jairinho, o Leniel disse que não queria mais abraço, e eles deram um aperto de mão amistoso", relatou. Segundo ela, Henry e Jairinho se afastaram após a agressão em novembro de 2020.
Acusações contra a babá
Monique negou que foi alertada pela babá Thayná Ferreira sobre as agressões de Jairinho no dia 2 de fevereiro de 2021. "Ela falou que me contou no mesmo dia, e isso é mentira. Eu nunca ia deixar isso acontecer, eu nunca deixaria os dois juntos", disse, emocionada. Ela também narrou as mensagens trocadas com Thayná em 12 de fevereiro, quando Jairinho teria se trancado no quarto com Henry, que saiu mancando e reclamando de dores na cabeça. "Ela contou que o Jairinho tinha chamado o Henry para ver o que ele tinha comprado. O Jairinho sabia que não queria que ele ficasse sozinho com o Henry. E ela disse: 'Acho melhor você vir'", contou Monique. Segundo ela, Thayná disse posteriormente que Henry afirmou que Jairinho "deu uma banda e chutou ele", dizendo que a criança atrapalhava a mãe.
Episódios de traição e agressão contra Monique
Monique relatou que, no início do relacionamento, recebeu uma mensagem de Débora, que afirmava estar namorando Jairinho. Ao ligar para esclarecer, Débora disse que estava com Jairo há seis anos, mas ele desmentiu. "Eu acreditei nele, mas fiquei com o pé atrás. Ela começou a me mandar prints, dizendo que tinha batido nela, que ele a tinha perseguido. Eu não acreditei, e eu e Jairinho voltamos a namorar", disse. Em novembro de 2020, quando dormia na casa dos pais em Bangu, Monique acordou com Jairinho a enforcando após uma crise de ciúmes. "Ele pulou o muro da casa dos meus pais, acordou me enforcando, jogando o telefone na minha cara porque tinha visto mensagens do Leniel comigo. Ele tinha a minha senha. Eu não tinha a senha dele, e eu descobri que ele tinha outras mulheres enquanto estava comigo". No dia seguinte, Jairinho pediu desculpas, alegando embriaguez, e o relacionamento continuou.
Ordem dos interrogatórios
A 7ª Câmara Criminal do Rio determinou que Jairinho seja interrogado depois de Monique. O pedido foi feito pela defesa dele, argumentando que Monique o acusa de ter cometido o crime sozinho, sendo essencial ouvi-la primeiro. O advogado de Monique, Hugo Novais, afirmou que ela responderá a todas as perguntas de forma estratégica. Segundo ele, Monique foi levada a júri por machismo e misoginia. "Por uma visão distorcida, por uma ótica de misoginia, de machismo, se atribuiu uma responsabilidade penal a uma mulher, pautado único, exclusivamente, num comportamento que se deveria ter, mas que não foi correspondido, dizendo que uma mãe foi ao salão depois do enterro do filho", ressaltou Novais.
Próximas etapas do julgamento
Após os interrogatórios, começarão os debates entre acusação e defesa. O Ministério Público e os assistentes de acusação terão entre 2h30 e 3h para apresentar suas teses. As defesas terão igual tempo. Como há dois réus, os advogados dividirão o tempo. Após as sustentações iniciais, a acusação poderá réplica de até 2h, e as defesas, tréplica de até 2h (1h para cada réu). Somadas, as manifestações podem ultrapassar dez horas. Depois, os sete jurados responderão quesitos sobre materialidade e autoria, com decisão por maioria. A juíza Elizabeth Machado Louro proferirá a sentença.
Testemunhas ouvidas
Até segunda-feira (1), 22 testemunhas foram ouvidas: 13 de acusação e 9 pelas defesas. Cinco foram dispensadas. Desde o início, em 25 de maio, testemunhas apresentaram versões que reconstroem os últimos meses de vida de Henry. Entre elas, peritos, policiais, profissionais de saúde, ex-companheiras de Jairinho e pessoas próximas ao casal.



