Iniciou nesta segunda-feira (2) em São Gabriel o júri popular dos três ex-policiais militares acusados de envolvimento na morte do jovem Gabriel Marques Cavalheiro, de 18 anos, ocorrida em agosto de 2022. Os réus Arleu Jacobsen, Cleber Lima e Raul Veras Pedroso respondem por homicídio qualificado por motivo fútil e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima.
Depoimento dos pais
As primeiras testemunhas ouvidas foram os pais da vítima e o delegado responsável pela investigação. Rosane Machado Marques e Anderson Cavalheiro relataram, por cerca de uma hora cada, a dor da perda e contestaram a versão dos policiais de que teriam apenas dado uma carona ao jovem. Rosane revelou a última conversa com o filho, horas antes da abordagem: “Voltamos à ditadura? O que meu filho fez de tão grave para ser morto à pauladas?”, questionou. O pai também descreveu as buscas: “Botava meia dúzia de pessoas no meu carro, alguns guris a cavalo e íamos procurar por ele. Nós já não acreditávamos que ele estava por ali”, afirmou.
Provas e laudo pericial
O delegado José Soares Bastos detalhou as provas por quase três horas, apontando indícios de agressões físicas antes da morte. “Fiz o inquérito apontando os policiais e tenho convicção que foram aquelas agressões que mataram o jovem”, disse. Conforme o laudo do IGP, a causa da morte foi hemorragia interna na região do pescoço. Testemunhas relataram que o soldado Raul Veras Pedroso teria desferido os golpes, e o corpo, quando retirado da água, apresentava marcas de agressão.
Reação da mãe
Após o júri, a mãe completou: “Eu disse 'voltamos à ditadura', porque agora eles batem, matam, fazem tudo, escondem corpos e parece que é que nem a ditadura, que antigamente enterrava os corpos e ninguém achava. A pessoa jogou o Gabriel no açude para se desmanchar e nunca mais achar ele”.
Andamento do julgamento
O júri encerrou por volta das 21h30 com o depoimento de um morador próximo à barragem onde o corpo foi encontrado. Nesta terça-feira, a última testemunha de acusação será ouvida. Ao todo, serão 20 testemunhas, além do interrogatório dos três ex-policiais. Os trabalhos foram retomados às 9h.
Relembre o caso
Gabriel Marques Cavalheiro se mudou de Guaíba para São Gabriel para prestar o serviço militar obrigatório. Ele desapareceu após ser abordado por três PMs na Avenida Sete de Setembro. Uma vizinha chamou a polícia alegando que o jovem estaria forçando o portão. Os policiais teriam agredido Gabriel com golpes de cassetete e o levado em uma viatura. O corpo foi encontrado uma semana depois, submerso em um açude. No mesmo dia, os três PMs foram presos.
Defesas e Ministério Público
Jean Severo, advogado de Cléber Lima e Raul Veras Pedroso, afirmou: “A defesa está muito tranquila, porque o Conselho de Sentença de São Gabriel vai entender o que realmente aconteceu. Esses homens são inocentes e certamente serão absolvidos.” Maurício Custódio, advogado de Arleu Jacobsen, disse: “Arleu é inocente, isso não há dúvida alguma. Iremos demonstrar ao povo são-gabrielense que essa foi uma das maiores injustiças cometidas contra um cidadão brasileiro.” O promotor Eugênio Amorim declarou: “Não podemos trazer Gabriel de volta, mas ao menos impedir que esta família tenha um segundo luto, o da injustiça e da impunidade. O Ministério Público vai forte, vai firme e vai buscar a condenação.”



