O cirurgião plástico Leandro Fuchs tornou-se réu na Justiça do Rio Grande do Sul após a aceitação das primeiras sete denúncias apresentadas pelo Ministério Público (MP). Ele responde por estelionato, falsidade ideológica, concussão e, em um caso específico, injúria racial. A decisão foi tomada após investigações que revelaram complicações graves em procedimentos estéticos.
Investigações e números alarmantes
Desde o início de 2024, quando os primeiros casos foram divulgados pelo RBS Notícias, a Polícia Civil abriu 97 inquéritos contra o médico. Até o momento, 57 ainda estão em andamento, enquanto o MP analisa outros 32 casos que podem resultar em novas denúncias. A dimensão do problema é evidenciada pelos dados: das 727 cirurgias analisadas, 481 precisaram de reparos, o que representa mais de 66% dos procedimentos.
Uma das vítimas é a professora Karina Machado Campello, que procurou Fuchs para uma redução de mamas, mas foi incentivada a realizar outras intervenções. Segundo ela, as cirurgias deixaram marcas permanentes e exigiram sucessivas tentativas de correção. "Me sinto como se fosse um lixo", desabafou Karina. "Não posso botar um sutiã, um biquíni, um vestido, qualquer coisa que aperte, que dói." Em dois anos, ela gastou mais de R$ 50 mil em tratamentos reparatórios, sem obter o resultado esperado.
Complicações e relatos de pacientes
As vítimas relatam necroses, infecções, deformações e outras complicações decorrentes das cirurgias. Uma paciente, que preferiu não se identificar, contou que desenvolveu uma infecção após os pontos de uma cirurgia abdominal abrirem. Ela precisou ficar dez dias internada e passou três vezes pelo bloco cirúrgico. "Tenho vergonha do meu corpo. Se eu já tinha antes, depois da cirurgia piorou. Ficaram cicatrizes horríveis. Tenho até medo depois de tudo o que eu passei", confessou.
Além das sequelas físicas, a advogada Carine Dagostini, que representa 15 mulheres, afirma que muitas pacientes enfrentam consequências emocionais severas. "Elas investiram economias acumuladas por anos na expectativa de alcançar um resultado que não foi obtido", explicou. As ações cíveis já somam quase 80 processos, com pedidos de indenização por danos morais, estéticos e psicológicos, além do ressarcimento dos valores pagos.
Irregularidades nos procedimentos
A Polícia Civil comprovou que Fuchs não permanecia na sala cirúrgica durante vários procedimentos sob sua responsabilidade. A conclusão foi baseada no cruzamento de dados do celular do médico com imagens das câmeras de segurança do Hospital Ernesto Dornelles, onde ele ocupava cargos de chefia. Em diversos casos, as cirurgias teriam sido realizadas por médicos residentes, o que surpreendeu uma das pacientes.
O MP, no entanto, optou por não denunciar Fuchs por lesão corporal gravíssima, alegando ausência de prova material. Carla Carrion Frós, coordenadora da Central de Atendimento às Vítimas do MPRS, explicou: "O Ministério Público não ofereceu denúncia, por ora, em relação aos crimes de lesão corporal gravíssima, uma vez que o resultado dos laudos feitos pelo IGP foi no sentido de que não haveria como comprovar que aquela cicatriz, que aquela lesão seja em razão da conduta do médico."
Situação atual do médico
A Justiça suspendeu o direito de Fuchs exercer a medicina, mas ele recuperou a autorização para consultas, permanecendo impedido de realizar cirurgias. A defesa afirma que ele não está mais atuando. O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) abriu uma sindicância, que corre em sigilo. O Hospital Ernesto Dornelles informou que Fuchs não integra mais o corpo clínico e que colabora com as autoridades.
Em nota, a defesa de Fuchs declarou: "As investigações e a ação penal tramitam sob sigilo de justiça e, por esse motivo, não se manifestará sobre o mérito das acusações. A inocência do Dr. Leandro Fuchs será demonstrada ao longo da instrução processual." A defesa também afirmou que ele exerce a medicina há mais de 30 anos e sempre pautou sua conduta pelo Código de Ética Médica.



