Em uma ação coordenada, advogados que representam comunidades indígenas protocolaram nesta quarta-feira um pedido formal para que o Supremo Tribunal Federal (STF) transfira o julgamento do marco temporal das terras indígenas do plenário virtual para o plenário presencial. A medida visa garantir maior transparência e permitir sustentações orais presenciais, que são cruciais para o debate de um tema tão sensível.
O que é o marco temporal
O marco temporal é uma tese jurídica que defende que os povos indígenas só têm direito às terras que ocupavam em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. A tese é criticada por organizações indígenas e de direitos humanos, que argumentam que ela ignora a história de deslocamento forçado e espoliação territorial.
O julgamento estava previsto para ocorrer no plenário virtual, onde os ministros apresentam seus votos por escrito, sem a necessidade de sessão presencial. No entanto, os advogados argumentam que a complexidade e a relevância do caso exigem um debate mais aprofundado, com a presença física das partes e a possibilidade de esclarecimentos imediatos.
Pedido formal e argumentos
No documento, os advogados destacam que o julgamento virtual limita a participação social e o acompanhamento público, essenciais em questões que envolvem direitos fundamentais. Eles citam precedentes em que o STF decidiu realizar sessões presenciais para casos de grande repercussão, como a demarcação da Raposa Serra do Sol.
Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que apoia a medida, o plenário presencial permitiria que lideranças indígenas estivessem presentes em Brasília para acompanhar as sustentações orais e pressionar os ministros. “A presença física é um ato de resistência e de visibilidade. Não podemos permitir que uma decisão tão importante seja tomada a portas fechadas”, afirmou o coordenador jurídico da Apib, Maurício Terena, em nota.
Reações e expectativas
A iniciativa recebeu apoio de diversas entidades, incluindo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que já haviam se manifestado contra o julgamento virtual do caso. A OAB, em parecer, ressaltou que o tema é de interesse público e exige ampla discussão.
O STF ainda não se pronunciou oficialmente sobre o pedido. A expectativa é que o presidente da Corte, ministro Luís Roberto Barroso, decida nos próximos dias se mantém o julgamento virtual ou o transfere para o plenário físico. Especialistas acreditam que a pressão popular e a mobilização indígena podem influenciar a decisão.
Impacto da decisão
O julgamento do marco temporal é considerado um dos mais importantes da história recente do STF, pois pode afetar a demarcação de centenas de terras indígenas. Estima-se que cerca de 300 processos estejam suspensos aguardando a definição da Corte.
Segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA), o Brasil possui 766 terras indígenas em diferentes estágios de demarcação, das quais 406 ainda não foram regularizadas. Uma decisão favorável ao marco temporal poderia inviabilizar a demarcação de muitas dessas áreas, gerando conflitos fundiários.
Por outro lado, a tese é defendida por setores do agronegócio, que argumentam que a demarcação de novas terras prejudica a produção agrícola e a economia. O governo federal, em gestões anteriores, apoiou o marco temporal, mas o atual governo se posicionou contra, defendendo a demarcação contínua.
Próximos passos
Enquanto o STF não decide sobre o formato do julgamento, a mobilização indígena continua. Lideranças de todo o país planejam atos em Brasília na semana do julgamento, previsto para ocorrer ainda este mês. A expectativa é de que a Corte finalmente resolva a questão, que já se arrasta há anos no Congresso e no Judiciário.
O pedido dos advogados indígenas é um lembrete da importância do processo democrático e da participação social em decisões que afetam minorias. A resposta do STF será um teste para sua postura em relação à transparência e ao diálogo com a sociedade.



