A família de Jandira Marina Dias Braga, de 76 anos, que morreu três dias após ser submetida a uma cirurgia destinada a outra paciente no Hospital Beneficência Portuguesa, em Campinas (SP), anunciou que vai buscar medidas judiciais para apurar e responsabilizar os envolvidos no erro médico. A decisão foi comunicada pela neta, Camila Dias Barozzi, em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo. Segundo ela, o objetivo é pressionar por mudanças nos protocolos cirúrgicos da instituição para evitar que casos semelhantes se repitam.
Erro cirúrgico e consequências
O incidente ocorreu na noite de 8 de junho. Jandira estava internada para tratar uma obstrução intestinal decorrente da recidiva de um câncer de cólon. Aguardava definição da equipe médica sobre o tratamento quando foi encaminhada ao centro cirúrgico. Lá, foi submetida a uma gastrostomia endoscópica, procedimento para colocação de uma sonda diretamente no estômago, entre 18h45 e 19h20. A troca só foi descoberta ao final da cirurgia, durante a passagem de plantão, quando funcionários notaram que a paciente correta ainda estava no quarto e conferiram a pulseira de identificação de Jandira.
O hospital admitiu o erro, abriu sindicância interna e adotou medidas administrativas contra os profissionais, incluindo desligamentos. Em nota, afirmou que uma avaliação médica e técnica concluiu que o procedimento não alterou o prognóstico da paciente. No entanto, a família contesta essa conclusão.
Piora do quadro clínico
Segundo Camila, a direção do hospital inicialmente alegou que a intervenção trouxe benefício clínico, permitindo drenar fluidos associados à obstrução intestinal. Contudo, já no dia seguinte, Jandira começou a vomitar líquido com aspecto de fezes. A neta relata que o quadro piorou rapidamente: a idosa apresentou taquicardia e sinais de sepse logo após a cirurgia. Registros médicos indicam que, na manhã de 9 de junho, ela desenvolveu confusão mental, hipotensão, queda da saturação de oxigênio e alteração do ritmo cardíaco, sendo transferida para a UTI. A equipe investigou sepse e tromboembolismo pulmonar. Diante da gravidade, familiares e médicos optaram por cuidados paliativos, sem medidas invasivas. Jandira morreu às 19h30 de 11 de junho.
Camila lamentou: 'Eu prometi para mim que não ia deixar isso quieto. Sempre fica aquela sensação do 'e se?'. E se tivesse dado certo? Ela poderia estar aqui com a gente.' A família acredita que o erro interrompeu a chance de um tratamento bem-sucedido, já que Jandira havia vencido o mesmo câncer 12 anos antes e, segundo a oncologista, não havia metástase — ela faria quimioterapia e teria uma vida normal.
Posicionamento do hospital e conselhos
O Hospital Beneficência Portuguesa informou que identificou o evento adverso, adotou medidas assistenciais, comunicou a família e instaurou sindicância. A avaliação médica concluiu que o procedimento não alterou o prognóstico. O hospital reforçou protocolos de segurança e encaminhou o caso aos conselhos profissionais. O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) disse que ainda não foi formalmente notificado, mas apurará possíveis infrações éticas. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) afirmou não ter registro do caso. A comissão de ética do hospital tem prazo para emitir parecer e encaminhar aos conselhos.



