Ex-presa política será indenizada em R$ 100 mil por torturas na ditadura
Ex-presa política indenizada em R$ 100 mil por torturas

O Estado brasileiro foi condenado a pagar uma indenização de R$ 100 mil a Ziléa Resnik, ex-militante do MR-8, por danos morais decorrentes das torturas físicas, psicológicas e sexuais que sofreu durante a ditadura militar. A decisão, divulgada nesta semana, estabelece que os juros moratórios incidem desde 1970, ano em que as agressões ocorreram.

Histórico de violência e luta

Ziléa Resnik integrou o MR-8, organização de esquerda que atuou na resistência ao regime militar. Durante o período em que esteve presa, ela foi submetida a sessões de tortura que incluíram violência física, psicológica e sexual. Além disso, foi obrigada a testemunhar as agressões sofridas pelo então companheiro, também preso político.

A decisão judicial reconhece o sofrimento prolongado e a gravidade das violações cometidas contra a integridade física e mental da militante. A indenização por danos morais, fixada em R$ 100 mil, representa uma reparação simbólica e material, ainda que tardia, por parte do Estado.

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Juros desde 1970: um marco temporal

Um dos pontos mais relevantes da sentença é a determinação de que os juros de mora sejam contados a partir de 1970, data em que as torturas foram praticadas. Esse entendimento amplia o valor final da indenização, uma vez que os juros acumulados ao longo de mais de cinco décadas aumentam significativamente o montante a ser pago.

Especialistas em direito e direitos humanos destacam que a decisão reforça a tese de que a reparação deve ser integral e proporcional ao dano, considerando o tempo de sofrimento e a gravidade das violações. A contagem dos juros desde a data dos fatos é vista como um avanço na jurisprudência sobre crimes da ditadura.

Contexto histórico e jurídico

O caso de Ziléa Resnik insere-se no esforço de revisão do período autoritário brasileiro, que durou de 1964 a 1985. Ao longo dos anos, diversas comissões e cortes têm reconhecido a necessidade de reparar as vítimas da repressão, tanto por meio de indenizações quanto por medidas de memória e verdade.

A condenação da União, que deverá arcar com o pagamento, ocorre em um momento em que o país debate os limites da anistia e a responsabilidade do Estado por violações de direitos humanos. A decisão também ecoa entendimentos de organismos internacionais, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que já condenaram o Brasil em casos semelhantes.

Impacto e repercussão

A indenização a Ziléa Resnik é vista como uma vitória para os movimentos de direitos humanos e para as vítimas da ditadura, que ainda lutam por justiça. Organizações como a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e o grupo Tortura Nunca Mais celebram a decisão, ressaltando que ela contribui para o reconhecimento público das atrocidades cometidas.

Para Ziléa, que dedicou sua vida à militância política e à defesa dos direitos humanos, a reparação representa um reconhecimento oficial do que sofreu. Embora nenhum valor possa apagar as marcas do passado, a sentença tem um caráter pedagógico e simbólico, reafirmando que o Estado não pode se furtar a responder por seus atos.

Próximos passos

Cabe à União recorrer da decisão, mas, caso mantida, o pagamento deverá ser efetuado. A sentença também pode abrir precedentes para que outras vítimas de tortura durante a ditadura busquem reparações semelhantes, especialmente aquelas que ainda não foram indenizadas.

A história de Ziléa Resnik é um lembrete de que a luta por memória, verdade e justiça continua. Enquanto houver torturadores impunes e vítimas sem reparação, o país estará em dívida com seu passado. A decisão judicial, ainda que tardia, é um passo importante para saldar essa dívida.

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