O deputado federal Luciano Bivar (MDB) gerou controvérsia ao defender o extermínio parcial de tubarões em Pernambuco, após dois ataques consecutivos que deixaram uma jovem de 19 anos e um menino de 11 anos gravemente feridos. Os incidentes ocorreram nas praias de Boa Viagem e Piedade, respectivamente, no domingo (31) e na segunda-feira (1º). Especialistas classificaram a declaração como 'absurda' e alertaram que a medida seria ineficiente e ecologicamente prejudicial.
Contexto dos ataques
Somente em 2025, Pernambuco registrou quatro pessoas mordidas por tubarões. Em janeiro, um adolescente de 13 anos morreu após ser atacado na Praia Del Chifre, em Olinda. Nos casos mais recentes, as vítimas perderam uma das pernas. Os ataques reacenderam o debate sobre a convivência entre banhistas e tubarões no litoral pernambucano.
Fala polêmica de Bivar
Em artigo de opinião publicado no Blog do Magno, Bivar afirmou que cresceu na Praia de Piedade e que, no passado, havia 'botos, cardumes infindáveis de sardinhas e peixes mil. Agora, nada disso'. Ele atribuiu a mudança ao crescimento da população de tubarões e sugeriu o abate como solução. 'Ou exterminamos um pouco desses tubarões, ou nossa fauna marinha de Piedade e Boa Viagem desaparecerá', escreveu, citando como exemplo a caça de elefantes no Quênia.
Em entrevista ao g1, Bivar reiterou a proposta e mencionou a autorização judicial para abate de búfalos no Pantanal, embora lá se trate de espécie invasora. 'Você tem que controlar, não pode deixar quem está no topo da cadeia alimentar não ter controle', disse. Ele afirmou que pretende consultar ambientalistas, como Sérgio Buarque, para viabilizar projetos no Congresso.
Reação dos especialistas
Danise Alves, secretária executiva do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), classificou a ideia como 'absurda'. Ela explicou que o extermínio é ineficiente e ecologicamente deturpado, pois os tubarões são predadores de topo e sua remoção causaria desequilíbrio na cadeia alimentar. 'Se você os elimina, acaba eliminando as presas, porque elas vão se proliferar tanto que não vai ter alimento para se manterem. Isso vai prejudicar a pesca, o turismo e o equilíbrio marinho', alertou.
O professor Paulo Oliveira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), também criticou a proposta. 'Exterminar uma determinada espécie nunca foi solução para nada. O tubarão não é um inseto, como o mosquito da dengue, e não é um animal exótico que está alterando o meio ambiente', afirmou. Ele defendeu o monitoramento e a educação ambiental como medidas mais eficazes.
Alternativas científicas
Segundo Danise Alves, a ciência aponta para a educação ambiental, pesquisa e monitoramento como soluções. O governo estadual interrompeu o monitoramento em 2015, mas deve retomá-lo em junho, com edital lançado no início do ano. Os pesquisadores capturarão tubarões, inserirão chips e os soltarão, além de instalar redes acústicas em áreas de incidentes. 'Quando os tubarões passam perto, o chip se conecta ao dispositivo e armazena a posição geográfica. Os pesquisadores vão entender melhor a dinâmica, se ficam aqui, se migram', explicou.
O professor Paulo Oliveira reforçou que o monitoramento é essencial para compreender o comportamento dos tubarões e reduzir riscos. 'Essa questão dos incidentes pode inclusive estar relacionada à alteração do meio que ele vive e a maneira como ele está respondendo', concluiu.



