A família do pastor Romildo Batista de Lima, de 69 anos, que morreu durante os terremotos na Venezuela, iniciou uma vaquinha virtual para custear o translado do corpo de Caracas para Uberlândia, em Minas Gerais. O transporte pode custar até R$ 50 mil, valor muito superior ao de uma passagem aérea comercial entre as duas cidades, que custa pouco mais de dois salários mínimos.
Por que o translado é tão caro?
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o translado internacional de um corpo exige uma série de etapas, como emissão de documentos consulares, autorizações sanitárias, embalsamamento e contratação de serviço funerário especializado. Na prática, o que parece ser apenas uma viagem de algumas horas se transforma em uma operação complexa e de alto custo. Em casos semelhantes, o transporte de corpos do exterior para o Brasil foi orçado entre R$ 30 mil e R$ 200 mil, variando conforme distância, urgência e exigências do país de origem.
No caso da Venezuela, a logística foi ainda mais complicada. Além da burocracia para a liberação do corpo, o aeroporto de Caracas ficou fechado em alguns períodos por questões de segurança nas operações aéreas. O Itamaraty informou que o registro consular de óbito é gratuito, mas a legislação brasileira não prevê o pagamento de despesas com embalsamamento, cremação, sepultamento ou translado, salvo em situações excepcionais. Os custos são pagos pela família ou por redes de apoio.
Como funciona o registro de óbito no exterior?
O óbito deve ser registrado na embaixada ou consulado brasileiro responsável pelo país onde ocorreu a morte. A declaração deve ser feita, de preferência, por um familiar (cônjuge, filho, irmão, mãe ou pai) ou por um representante autorizado, como uma funerária. Entre os documentos exigidos estão: formulário de registro de óbito preenchido, certidão de óbito emitida pelas autoridades locais, documento de identidade brasileiro do falecido e documento de identidade do familiar ou representante. O registro é gratuito. Após a emissão, a certidão consular deve ser transcrita em um cartório de registro civil no Brasil para ter validade legal.
Documentos necessários para o translado
Além do registro de óbito, é necessário emitir e legalizar: autorização para o transporte internacional do corpo, certidão de óbito original, certificado de embalsamamento e atestado sanitário comprovando que a morte não foi causada por doença contagiosa. Em casos de doenças infectocontagiosas, o corpo deve ser transportado em uma urna metálica hermeticamente fechada. Os órgãos emissores variam conforme o país.
Vaquinha da família
Com o custo estimado em cerca de R$ 50 mil, a família do pastor Romildo iniciou uma vaquinha virtual. A campanha foi criada depois que os familiares foram informados de que o corpo não poderia ser transportado em um voo comercial. Segundo apuração da TV Integração, a família conseguiu um embarque para sábado (27), mas, após a liberação do corpo para a funerária, foi informada de que o estado de conservação não permitia o transporte em aeronave comercial.
A morte do pastor foi confirmada pela esposa, Carlha Nacarid, que ficou ferida e segue internada na Venezuela. Segundo a sobrinha Jhulya Ribeiro de Lima, quando o terremoto começou, na noite de quarta-feira (24), o casal correu para buscar abrigo, mas uma parede caiu sobre os dois. Romildo foi socorrido e levado a um hospital, mas não resistiu e morreu na madrugada de quinta-feira (25).
“Como os custos são muito altos, a vaquinha online vai tanto ajudar a custear o translado, como também ajudar a Carla, esposa do meu tio que segue internada”, contou Jhulya. A campanha continua sendo divulgada nas redes sociais pelos familiares.
O pastor e a tragédia
Quatro dias antes da tragédia, Romildo havia comemorado seu aniversário de 69 anos ao lado da esposa, durante a viagem a Caracas para visitar familiares dela. Natural de Chapada de Minas (MG), ele construiu a vida em Uberlândia, onde morava há mais de dez anos. Pastor evangélico, embora não estivesse em atuação atualmente, era lembrado pela família como um homem de fé, afetuoso e apaixonado por viajar. “Meu tio era uma pessoa muito boa, uma pessoa radiante, que adorava viajar e aproveitar a vida. É muito triste ver pessoas assim perderem a vida dessa forma, ainda mais com tal grau de descaso”, lamentou Jhulya.
Na noite de quarta-feira (24), dois terremotos em sequência atingiram a região norte do país, onde fica Caracas. Além das mortes, os tremores derrubaram prédios e deixaram um rastro de destruição. Os sismos foram os mais fortes no país em mais de 100 anos. O governo venezuelano atualizou na segunda (29) o número de mortos para 1.719, além de 5.034 feridos e cerca de 50 mil desaparecidos. O governo brasileiro confirmou a morte de dois brasileiros, sem divulgar as identidades, e informou estar prestando assistência consular às famílias.



