Há quatro décadas, o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) passou por uma transformação radical, liderada pelo escritor e professor Rubem Alves. Até 1986, a prova era de múltipla escolha, modelo que vigorava desde 1966. Em 1987, a Unicamp elaborou seu próprio vestibular, substituindo as alternativas por questões discursivas e redação, desafiando a chamada 'ditadura do X'.
O novo modelo de prova
Rubem Alves, à frente de um grupo de professores e especialistas, idealizou uma prova que priorizasse a interpretação e o raciocínio, em vez da memorização. 'Nós queríamos um vestibular que não testasse a memória, porque há pessoas com memória perfeita que são completamente estúpidas. Então, a grande questão é: como testar a capacidade de pensar de maneira inteligente dos alunos? [...] O que importa é a articulação do pensamento', explicou Alves em entrevista de 2006.
As principais mudanças, que permanecem até hoje, foram a inclusão de questões discursivas e redação. O ex-coordenador de logística da Comvest, Ary Orozimbo Chiacchio, recordou que a ideia começou em 1986 e se materializou no ano seguinte. 'Foi crescendo. Outros professores foram colaborando, participando, querendo integrar a equipe. Um trabalho conjunto mesmo. Demorou, teve resistência, mas foi bom', afirmou.
Desafios iniciais
Implementar um modelo inovador em uma época sem computadores foi desafiador. O ex-colaborador José de Alencar Simoni, conhecido como Cajá, lembrou que as figuras nas provas eram feitas à mão. 'As primeiras provas, quando você tinha uma figura, tinha a letra [assinatura] de alguém. As figuras eram feitas à mão', disse.
Exercícios criativos incluíram provas temáticas sobre os Jogos Olímpicos, questões em forma de diálogo entre um casal e um exercício de química com montagem de moléculas usando figurinhas. 'A gente sempre quis fazer uma coisa que fosse inusitada, mas não que causasse um grande constrangimento, uma grande dificuldade para o estudante. Que o estudante pudesse ver a prova de uma forma diferente', comentou Cajá.
Percalços logísticos
Nos primeiros anos, a Unicamp enfrentou problemas como cambistas nas inscrições e correção manual em ginásios. As inscrições eram presenciais, e cambistas compravam fichas para revender por preços mais altos. 'Vendiam por um preço bem mais alto do que o da inscrição, mas pelo menos salvavam a vida do candidato que não tinha feito a inscrição', lembrou Ary. A solução foi criar um dia extra de inscrição para casos excepcionais, até a informatização resolver o problema.
A correção era manual, feita em ginásios, e só mudou com a digitalização nos anos 2000. Em 1995, o telhado de um ginásio desabou após um vendaval, mas nenhuma prova ou corretor estava presente. 'Tinha goteira, tinha chuva, os corretores saíam correndo com as caixas para proteger as provas, corriam para debaixo das escadas dos ginásios. Os pombos faziam sujeira em cima da prova', apontou Ary.
Democratização do acesso
O novo modelo de prova, junto com cotas para pretos, pardos, pessoas com deficiência e egressos de escolas públicas, e o vestibular indígena, tornaram a Unicamp mais democrática. O número de inscritos saltou de 13.260 em 1987 para 61.698 em 2026. Os candidatos de escolas públicas passaram de 5.227 para 19.257 no mesmo período. Entre os matriculados, o percentual de egressos de escolas públicas subiu de 29% em 1987 para 50,4% em 2026. Pretos, pardos e indígenas, que eram 10,1% dos estudantes em 2003, hoje são 32,8%. Em 1987, a maioria era homens (60,3%); agora, as mulheres lideram com 54,5%.
O atual diretor da Comvest, José Alves de Freitas Neto, destacou a relevância da prova: 'A prova da Unicamp foi muito inovadora por valorizar a leitura e a interpretação. Nós continuamos, sobretudo hoje, em um universo invadido por fake news, invadido por negacionistas, incentivando a saber ler e a decodificar adequadamente a informação'.
Memorial dos 40 anos
Para celebrar os 40 anos, a Comvest inaugurou um memorial na sede, na Rua Josué de Castro, na Cidade Universitária, em Campinas (SP). O espaço exibe fotos, documentos e relatos de pessoas envolvidas, com entrada gratuita e agendamento pelo e-mail vestibular@unicamp.br. As informações também estão disponíveis em um site do projeto. 'É fundamental contar essa história, porque, afinal de contas, são 2,2 milhões de pessoas que tentaram entrar nessa universidade ao prestar o vestibular nesses 40 anos. Pensar tudo o que está por trás, a identidade que a universidade transmite a partir do seu vestibular, é fundamental', comentou José Alves.



