Professora negra da periferia cria escola online e democratiza inglês
Professora negra da periferia cria escola online de inglês

Karina Santana, de 32 anos, professora e fundadora da escola online Kasch Inglês para Todos, criada na Zona Leste de São Paulo, transformou a própria demissão em um projeto que hoje atende centenas de alunos em diversos estados brasileiros e no exterior. A educadora, que é negra e periférica, construiu uma trajetória marcada pela luta contra o racismo e pela democratização do acesso ao idioma.

Um retrato da desigualdade no acesso ao inglês

Dados do British Council, em parceria com o Data Popular, revelam que apenas cerca de 5% dos brasileiros com mais de 16 anos afirmam ter algum conhecimento de inglês, e menos de 1% da população é considerada fluente no idioma. Para Karina, esses números evidenciam como aprender uma segunda língua ainda é privilégio de poucos no país.

“A única pessoa da minha família que fala inglês sou eu. A única pessoa da minha quebrada que eu conhecia falando inglês era eu”, afirma a professora, que passou mais de uma década lecionando em escolas bilíngues de elite de São Paulo.

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Da infância com Michael Jackson à carreira no ensino

O interesse pelo inglês nasceu na infância, influenciado pela música de Michael Jackson, Whitney Houston e Aretha Franklin. Karina queria entender as letras e as mensagens por trás das canções. Anos depois, uma bolsa de estudos em uma escola de idiomas abriu caminho para uma carreira iniciada aos 17 anos.

Criada entre os bairros Jardim Iva, Vila Nova York e São Mateus, na Zona Leste paulistana, Karina cresceu em uma família que via a educação como ferramenta de transformação social. A principal referência foi a mãe, que estudou pela Educafro, cursinho popular voltado à inclusão de pessoas negras, indígenas e de baixa renda no ensino superior.

“Minha mãe queria que mais pessoas tivessem acesso à universidade. Ela sempre levava as crianças do bairro onde morávamos para museus, teatros e exposições, mostrando que aqueles espaços também eram nossos. Era assim que a gente também estudava”, recorda.

Racismo nas escolas bilíngues

Trabalhar em escolas bilíngues também trouxe experiências difíceis. Karina relata que, em diferentes momentos da carreira, enfrentou episódios de racismo dentro do ambiente escolar. Um deles aconteceu quando uma criança levou um sabonete para a sala de aula e disse que ela precisava “se limpar porque preto é sujo”.

“O que mais me marcou não foi o aluno. Foi a reação da escola”, conta. Segundo ela, a direção tentou minimizar o episódio e impedir que os pais fossem comunicados. Essas experiências fortaleceram um incômodo que já existia: o ensino de inglês continuava distante das pessoas que vinham da mesma realidade que ela.

A virada em 2021

A virada aconteceu em 2021. Após retornar da licença-maternidade, Karina pediu uma alteração na rotina de trabalho para acompanhar o tratamento médico do filho mais novo, diagnosticado com uma síndrome rara. No dia seguinte, foi demitida.

“Eu senti medo. Mas também senti alívio. Foi aí que percebi que precisava construir outra coisa”, lembra. Com um perfil recém-criado nas redes sociais, começou a produzir conteúdos sobre ensino de inglês, racismo, educação e desigualdade no acesso ao idioma.

O que começou com apenas três alunos cresceu rapidamente. “Em junho eu já tinha mais de 100 alunos. No fim do ano, eram 150”, conta. Hoje, a escola Kasch reúne centenas de estudantes, conta com uma equipe de professores, plataforma própria e alunos espalhados por diversas cidades brasileiras e também em outros países.

Histórias que transformam

Para Karina, o maior resultado não está apenas no número de matrículas, mas nas histórias que surgiram ao longo da trajetória. Uma delas aconteceu com uma aluna que iniciou o curso no nível básico de inglês. Anos depois, ela entrevistou Angela Davis, filósofa, escritora e ativista norte-americana considerada uma das principais referências mundiais na luta pelos direitos civis, pelo feminismo negro e pelo combate ao racismo.

Após a entrevista, a ex-aluna procurou Karina para agradecer e contou que só conseguiu conduzir a conversa graças ao método de ensino que aprendeu durante o curso. “Isso enche meu coração de alegria. É quando eu vejo que o inglês realmente mudou a vida de alguém”, celebra a educadora.

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Além do inglês: conteúdo e reconhecimento

Além das aulas, Karina utiliza as redes sociais para discutir temas como colonialismo linguístico, representatividade, empreendedorismo e educação. Os conteúdos produzidos por ela também abordam maternidade, desigualdade social e o acesso ao ensino de idiomas.

Recentemente, a educadora conquistou o primeiro lugar no Fiel Conecta, evento voltado ao empreendedorismo periférico realizado na Neo Química Arena. Para ela, o reconhecimento vai além do prêmio e evidencia o potencial criativo e inovador das periferias, que muitas vezes não recebe a mesma visibilidade de outros territórios.

“Eu não quero que as pessoas aprendam inglês porque alguém mandou. Quero que elas entendam por que isso pode abrir oportunidades”, afirma Karina, que também incentiva outros empreendedores e criadores de conteúdo a utilizarem as redes sociais como ferramenta de transformação e geração de oportunidades.