A medida mais urgente que o Ministério da Educação precisa tomar no próximo governo é revisar as políticas para professores, avalia a cofundadora e presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz. “O investimento mais bem gasto na Educação é no professor”, defendeu após participar do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão até agosto. O ciclo de debates busca apresentar propostas concretas para o presidente que for eleito em outubro sobre os principais problemas do País. As soluções serão consolidadas em um documento que será entregue em novembro ao vencedor do pleito.
No MEC, Cruz avalia que houve avanços em políticas básicas, como alfabetização, ensino integral e educação profissional. “Mas se não qualificarmos bem o professor, todas essas políticas terão um resultado muito aquém do que poderiam.” Ela aponta ser necessário investir mais na atratividade da carreira docente, garantir uma formação inicial de qualidade e melhorar as condições de trabalho dos professores. “Se conseguirmos colocar muita intensidade, recursos e técnica nesse conjunto de políticas docentes, aí o Brasil voa.”
Qual é a primeira coisa que o presidente eleito precisa fazer no âmbito do MEC?
A principal missão que o novo governo federal terá de enfrentar são as políticas docentes: a atratividade da carreira, a formação inicial, as condições de trabalho e a formação continuada dos professores. É necessário um pacote coerente, com força e intensidade, porque hoje as políticas educacionais têm andado, mas ainda esbarram em um teto baixo, que é a qualificação docente. Se conseguirmos colocar muita intensidade, recursos e técnica nesse conjunto de políticas docentes, aí o Brasil voa. Isso porque temos conseguido cada vez mais colocar essas políticas básicas — de alfabetização, educação integral e educação profissional — em um trilho bom. Mas, se não qualificarmos bem o professor, todas essas políticas terão um resultado muito aquém do que poderiam.
O que o MEC pode fazer para tornar a carreira docente mais atrativa?
Tem uma experiência que já está em marcha no governo federal, mas que precisa ser colocada no modo turbo: o Mais Professores. É uma arquitetura de política pública que atrai os melhores alunos que fizeram o Enem, com nota acima de 650, por meio de uma bolsa do governo federal para quem cursar licenciatura, paga ou pública. Ele vai ter o benefício para não precisar trabalhar em outra área, poder se dedicar aos estudos e conseguir pagar a faculdade privada, se for o caso. O Brasil precisa dar recursos para aquele que optar pela carreira docente para conseguir aumentar a média da nota no Enem daqueles que estão ingressando na carreira. Depois, na universidade, precisa ser uma grande obsessão tornar a pedagogia e as licenciaturas cursos de preparação para a sala de aula.
É hipercomplexo ser professor no Brasil. Tem uma dispersão de níveis de aprendizagem entre os alunos de uma mesma sala de aula. Sem uma formação adequada, é extremamente difícil para o professor saber exatamente quais são as intervenções que ele tem que fazer para cada grupo de alunos. Cada vez mais precisamos mexer nessa formação e nesse currículo. Precisamos acabar com o ensino a distância (EAD) e dar um estímulo para as faculdades terem uma preparação muito mais prática para esses professores.
Turbinar as políticas para docentes é colocar mais recursos? Ser mais rígido com a formação?
É colocar mais recursos, porque hoje o Mais Professores tem recursos muito baixos. Ele precisaria ter mais verba para atrair mais alunos do ensino médio com bolsas maiores. Precisamos aumentar o valor da bolsa e chegar a mais alunos. De tudo que precisamos fazer no Brasil no campo da educação, o investimento mais bem gasto é nos professores.
Sobre o EAD, qual medida que o MEC poderia tomar?
O Conselho Nacional de Educação (CNE) está discutindo justamente isso: qual é o mix adequado de participação de EAD, presencial e síncrono mediado (o EAD com o professor dando aula e o aluno assistindo ao mesmo tempo). O Todos pela Educação defende o texto atual em discussão no CNE. Mas tem muito lobby das universidades privadas. Elas querem aumentar a participação de EAD e reduzir o presencial e o síncrono mediado. É uma discussão que está acontecendo exatamente nesse momento. Então, precisamos criar uma pressão da sociedade: “Olha, conselheiros, não flexibilizem, não caiam no lobby das universidades privadas”. Precisamos garantir uma formação de qualidade para todos os professores e futuros professores.
O que pode ser feito sobre formação continuada?
A formação continuada é um trabalho mais para os Estados e Municípios. O governo federal pode dar diretrizes, criar uma plataforma. Mas é um trabalho muito mais forte dos Estados e dos Municípios, e dos Estados apoiando os Municípios. As últimas políticas públicas que mais deram certo tiveram os Estados apoiando os Municípios. Quando temos essa articulação de esforços, temos conseguido grandes resultados na alfabetização, na expansão da educação integral. Então, o mesmo precisa ocorrer na formação continuada dos professores. Aí, é um trabalho muito mais do subnacional do que do governo federal. O governo federal pode fazer muita coisa, mas tem que chegar ao subnacional.



