O economista e Prêmio Nobel James Heckman alertou, em palestra nesta quarta-feira (29), que a introdução da tecnologia na educação infantil apresenta tanto riscos quanto benefícios. Segundo ele, o uso inadequado de dispositivos digitais pode aumentar as desigualdades educacionais, mas, quando bem planejado, pode potencializar o desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças.
Riscos da tecnologia na primeira infância
Heckman destacou que o acesso desigual a tecnologias de qualidade pode agravar as disparidades existentes. “Crianças de famílias de baixa renda muitas vezes têm contato apenas com conteúdos passivos e de baixa qualidade, enquanto as de maior renda usam ferramentas interativas e supervisionadas”, afirmou. Um estudo citado por ele mostrou que 40% das crianças brasileiras de até 5 anos usam telas por mais de duas horas diárias, sem mediação adequada.
O excesso de tempo de tela, sem supervisão, está associado a atrasos na linguagem e dificuldades de atenção. Heckman ressaltou que a tecnologia não substitui a interação humana e o afeto, essenciais para o desenvolvimento cerebral nos primeiros anos.
Benefícios potenciais quando bem utilizada
Por outro lado, o Nobel argumentou que ferramentas digitais podem ser aliadas poderosas. Programas educacionais bem desenhados, com conteúdo adaptativo e foco em habilidades como resolução de problemas, mostraram melhorias de até 25% em indicadores de prontidão escolar. “A chave é integrar a tecnologia com métodos pedagógicos baseados em evidências e com a participação ativa dos educadores”, disse.
Heckman mencionou experiências bem-sucedidas no Chile e no México, onde tablets com softwares específicos, combinados com treinamento de professores, reduziram o déficit de aprendizado em comunidades carentes.
Recomendações para políticas públicas
O economista recomendou que governos invistam em infraestrutura digital, mas também em capacitação de professores e pais. “Não adianta distribuir tablets sem formar os adultos que irão mediar o uso”, afirmou. Ele sugeriu que políticas públicas priorizem a primeira infância, com foco em interação, criatividade e limites claros de tempo de tela.
Heckman concluiu que a tecnologia na educação não é boa nem má por si só: “Depende de como é implementada. Se ignorarmos os riscos, corremos o sério perigo de ampliar o fosso educacional.”



