Mais de 65% dos professores brasileiros relatam já ter sofrido algum tipo de agressão no ambiente escolar, segundo pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 docentes. A violência verbal é a mais comum, representando 71% dos casos, seguida pela psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%). O Brasil lidera o ranking de violência contra professores em levantamento de 2024 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ouviu 280 mil educadores de 55 países: 47% dos professores brasileiros relatam ser intimidados ou abusados verbalmente por alunos, ante média global de 18%.
Ameaça de morte e medo constante
A professora Marta (nome fictício), da Zona Oeste de São Paulo, com 26 anos de magistério, foi ameaçada de morte pelo pai de um aluno do 1º ano do ensino fundamental em março de 2023. "Ele ligou na escola e falou que 'ia matar aquela vagabunda'", recorda. O pai, com envolvimento no crime local, culpava a professora pelas dificuldades de aprendizado do filho de 6 anos. Marta fez boletim de ocorrência, mas não representou criminalmente por medo. A Prefeitura a afastou da escola, mas ela relata: "Meu problema psicológico foi horroroso. Fiquei com pânico de dormir".
Violência na escola: soco e dedo decepado
Pedro (nome fictício), professor na Zona Norte de São Paulo, foi agredido com um soco no peito por um aluno autista durante atividade sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+ em 2024. "Ele foi para cima das alunas, eu intervi e acabei tomando um soco", conta. Apesar da opção de afastamento, Pedro decidiu voltar: "Quando acontecem esses casos, fica difícil voltar depois".
Michelle Bernardes, professora na Zona Leste, teve o dedo médio da mão direita parcialmente decepado em 2024 ao tentar conter um aluno com deficiência intelectual em crise. O estudante chutou a porta, que bateu na mão da educadora. "Uma estudante pegou o resto do dedo no chão", relata. Ela passou por duas cirurgias e aguarda fisioterapia. "Precisamos de políticas públicas para inclusão de qualidade", afirma.
Múltiplas formas de violência
A psicóloga Renata Paparelli, da PUC-SP, que atende professores vítimas de violência, distingue três tipos: violência da escola (políticas públicas inadequadas, como falta de estrutura para inclusão de alunos com deficiência), violência na escola (agressões de alunos e gestão omissa) e violência contra a escola (depredações e desvalorização social). O Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es da UFF aponta que 61% dos professores da educação básica e 55% do ensino superior já sofreram perseguição, incluindo censura e assédio jurídico.
Saúde mental em colapso
Os efeitos na saúde mental são graves: burnout, depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Dados do governo de São Paulo mostram que, em 2024, foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais a professores estaduais — mais de 115 por dia. Até setembro de 2025, já são mais de 25 mil licenças. Paparelli observa que os afastamentos começam curtos, mas se prolongam, levando à readaptação funcional, muitas vezes com isolamento e humilhação.
Soluções dividem especialistas
O CPP defende a atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para responsabilizar alunos agressores. "Tem que existir limite para o aluno em proteção do professor", diz a advogada Ana Carolina Soares. Já Roberto Guido, presidente interino da Apeoesp, aposta no diálogo com a comunidade: "A ausência de diálogo contribui para o aumento da violência". Paparelli reforça: "A escola precisa de condições de trabalho e integração com a comunidade para pactuar a não violência". Ela alerta que a violência também atinge a rede privada, mas faltam dados.



