Há mais de 13 anos, os moradores de Rio Bom, no norte do Paraná, não presenciam um homicídio ou feminicídio. Com pouco mais de 3 mil habitantes, a cidade é a que está há mais tempo sem registrar crimes violentos contra a vida no estado, segundo dados do Ministério da Justiça e da Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP-PR). O município pertence à 17ª Subdivisão Policial de Apucarana, responsável por outros 25 municípios, e não conta com Guarda Civil Municipal nem delegacia – apenas um destacamento da Polícia Militar para policiamento preventivo.
Calmaria que atrai e surpreende
Rio Bom fica no Vale do Ivaí, a cerca de 350 km de Curitiba. Mesmo durante a semana, o movimento é escasso, concentrado na Avenida Rio Grande do Sul. Casas com muros baixos e sem sistemas de segurança são comuns; crianças brincam nas ruas e jovens usam as praças até tarde. Brigas são raras, até em festas comunitárias.
A comerciante Rosângela Erli Rech Mazzutti, dona de um mercado há 36 anos, diz que a tranquilidade a surpreende. "Isso mostra que a nossa população é saudável. Com tantos problemas que vemos em todos os lugares, a nossa cidade está tão bem. A gente fica muito contente", afirma. Ela conta que todos se conhecem e que a confiança é tanta que a maioria das vendas ainda é registrada em caderneta. "Cidade pequena tem disso. Quando chega alguém diferente, a gente já fica de olho. Todo mundo se protege, se comunica."
Educação e vínculos como pilares
Ilza Venturini da Silva, professora há 25 anos e natural de Rio Bom, descreve a cidade como um "grande lar". "Desde criança a gente ia e voltava da escola sozinho, sem perigos. Hoje ainda é uma cidade calma. Muita gente escolhe vir para cá por ser pacata", diz. Em sala de aula, ela prioriza ensinar o respeito ao próximo e fica atenta a sinais de problemas. "As crianças estão em constante desenvolvimento. A gente coloca o valor do ser humano, que está escasso em muitos lugares."
Para o delegado Marcus Felipe da Rocha Rodrigues, chefe da subdivisão responsável por Rio Bom e Novo Itacolomi, os vínculos comunitários são fundamentais. "Pelo fato de ser uma cidade pequena, essa relação ganha intensidade. Os moradores denunciam situações de conflito que podem evoluir para ocorrências letais. A integração com a polícia ajuda a prevenir crimes."
Conseg: elo entre comunidade e polícia
Geraldo Lúcio Teixeira, ex-policial militar e presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) de Rio Bom, atua como ponte entre a população e as autoridades. "Devido aos anos que trabalhei na polícia, a população confia em mim. Quando precisam, vêm até minha casa para fazer denúncias. Se a viatura não está na cidade, entro em contato com os policiais", explica. O Paraná tem 206 Consegs ativos, que reúnem moradores e forças de segurança para discutir soluções de segurança pública.
Teixeira também se emociona ao lembrar de um amigo policial assassinado nos anos 90. "Era meu aniversário e eu saí da cidade. Quando voltei, encontrei ele morto na maca. Apesar de fazer muitos anos, a gente não esquece."
Combate ao tráfico e elucidação de crimes
O delegado Rodrigues destaca que o combate constante ao tráfico de drogas contribui para a ausência de homicídios. "Toda cidade tem alguém que vende drogas. Monitoramos e combatemos. É importante evitar que o tráfico se torne violento, que ameace e intimide." Ele ressalta que a falta de disputas territoriais entre traficantes, comum em grandes centros, é um fator crucial. Além disso, a alta taxa de elucidação de homicídios e feminicídios gera sensação de segurança e inibe novos crimes.
Panorama estadual e metas
O secretário de Segurança Pública do Paraná, coronel Saulo de Tarso Sanson, afirma que o estado vive o melhor período histórico no setor. Nos primeiros cinco meses de 2026, a taxa de homicídios e feminicídios foi de 10,26 por 100 mil habitantes, contra 13,85 no Brasil. A meta é reduzir esse índice para abaixo de 10% em cidades com mais de 100 mil habitantes. Ações como a Operação Cidade Segura e a Operação Lâmina Zero – que foca na retirada de armas brancas entre pessoas em situação de rua – são citadas como responsáveis pela melhora.
Além de Rio Bom, Novo Itacolomi está há mais de uma década sem crimes contra a vida (último caso em 2013). Campo Bonito (oeste) e Verê (sudoeste) estão há 9 e 8 anos, respectivamente. Outras 29 cidades do Paraná têm entre 5 e 7 anos sem ocorrências. De janeiro a maio deste ano, 246 das 399 cidades do estado não registraram homicídio ou feminicídio, segundo o Ministério da Justiça.



