Projeto mapeia patrimônios culturais nas favelas da Leopoldina, no Rio
Projeto mapeia patrimônios culturais em favelas da Leopoldina

O projeto Corpo Morada, parceria entre o Observatório de Favelas e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), chega à terceira edição mapeando a memória e os patrimônios culturais das favelas da região da Leopoldina, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A iniciativa formou cerca de 20 moradores como agentes de educação patrimonial, que pesquisaram e inventariaram lugares, manifestações culturais e personagens considerados relíquias das comunidades.

Territórios da Leopoldina

O trabalho percorreu um conjunto de territórios historicamente conhecido como Zona da Leopoldina, área marcada por intensa produção cultural e importância na formação urbana do Rio. O recorte inclui Maré, Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Manguinhos, Brás de Pina, Cidade Alta, Kelson's/Marcílio Dias e áreas de Ramos. Segundo Lino Teixeira, coordenador-geral da pesquisa e do Eixo de Políticas Urbanas do Observatório de Favelas, a Leopoldina tem um valor histórico fundamental na formação da cidade, desde os sambaquis e tupinambás até a ocupação da Baía de Guanabara e as primeiras favelas.

Formação de agentes patrimoniais

Moradores locais, entre ativistas, pesquisadores e estudantes, foram selecionados para participar do curso em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ. Ao longo da formação, eles mapearam o que consideram memória e patrimônio em seus territórios. O resultado é o e-book “Corpo Morada – Inventários e Educação Patrimonial nas Favelas da Leopoldina”, uma coletânea dos tesouros comunitários.

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Maiara Viana, de 30 anos, moradora da Maré e mestranda em Cultura e Territorialidade pela UFF, conta que insistiu até conseguir uma vaga. “No meu estudo eu pesquiso a relação entre corpo e território, entendendo o corpo como o primeiro lugar de apreensão do mundo. Quando vi o projeto Corpo Morada, pensei: 'faz muito sentido para mim'. Conheci muita coisa de outras favelas que eu não conhecia e passei a olhar com mais atenção para lugares da própria Maré”, afirma.

Relíquias da Leopoldina

Cada favela recebeu um eixo temático, e dentro dele foram identificadas relíquias – termo inspirado na gíria carioca para designar algo ou alguém muito antigo ou digno de respeito. Em Manguinhos, a relíquia escolhida foi Dona Celeste Estrela, 85 anos, que depois de trabalhar como empregada doméstica e em empresa de ônibus, aposentada realizou o sonho de ser escritora, atriz e cantora. Publicou o primeiro livro aos 79 anos e já concluiu o terceiro, aguardando editora. “É muito emocionante receber esse reconhecimento. Passei por muita humilhação na vida, sofri racismo. Na escola, até a professora me chamava de 'macaquinha'. Mas a cultura sempre mexeu comigo”, declarou.

Em Brás de Pina, o destaque foi a luta dos moradores da Vila Santa Edwiges contra a remoção nos anos 1960. Com apoio de urbanistas, elaboraram um projeto que previa permanência das famílias, abertura de ruas, infraestrutura e mutirão para construir moradias. A experiência transformou a comunidade em referência nacional para urbanização de favelas.

Impacto e visibilidade

Lino Teixeira conclui: “O ponto-chave é superar os estigmas, mudar a forma como a favela é vista e criar novos marcos para valorizar seu patrimônio e sua gente”. O projeto já gerou um e-book que documenta esses tesouros, contribuindo para o reconhecimento da história e cultura das favelas da Leopoldina.

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