Inscrição persa no Theatro Municipal do Rio é decifrada após 117 anos
Inscrição persa no Theatro Municipal decifrada após 117 anos

Gravada no Salão Assyrio do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1909, uma frase em persa antigo só teve seu significado revelado este ano graças ao interesse de dois pesquisadores. A inscrição, que permaneceu por 117 anos como um enigma, diz: “Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”.

A descoberta do significado

A história começa quando Alex Mazzanti Junior leva a mãe para uma visita guiada ao Municipal. Ao se deparar com o texto, o olhar treinado do professor de Língua e Literatura Latina da UFRJ reconheceu na inscrição o sistema cuneiforme de escrita e intuiu que poderia ser o persa antigo. Perguntou à guia se havia, no acervo do teatro, registro do significado. Não havia. O passo seguinte foi levar o “enigma” para seu colega Matheus Treuk, professor de Arqueologia da Antiguidade da Uerj. Depois de alguns meses de trabalho, os dois publicaram, em abril, o artigo no qual revelam o significado da inscrição.

A menção é a um grande salão (o Apadana) que tinha, de fato, uma referência ao rei Artaxerxes II, filho de Dario II. Não corresponde literalmente a uma inscrição antiga descoberta. O que parece ter acontecido é que os responsáveis pela decoração compuseram um novo texto a partir de elementos conhecidos da escrita persa antiga — explica Matheus Treuk, que também atua no Núcleo de Estudos da Antiguidade (NEA-Uerj).

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Repercussão e divulgação científica

A revelação ganhou destaque e despertou interesse do público. A repercussão foi uma surpresa para os pesquisadores. “A gente não esperava que fosse gerar tanto interesse. Acho que isso se deve ao fato de ser uma publicação inédita sobre algo que tem um certo caráter exótico, mas que também faz parte desse incrível e histórico monumento do Rio que é o Theatro Municipal. Além disso, o painel é muito bonito”, diz o professor Alex Mazzanti Junior, que é membro do Grupo de Estudos de Línguas Indo-Europeias Antigas (GELIEA). “Mas, para mim e para o Matheus, o mais importante é aproveitar esse momento de repercussão para fazer divulgação científica. É uma oportunidade de mostrar um pouco do trabalho que produzimos na universidade pública e aproximar esse conhecimento da sociedade.”

Outras inscrições em persa antigo no Rio

A descoberta atraiu os holofotes, mas esse não é o único texto em persa antigo do Rio. Em São Cristóvão, na Praça Pedro II, a base da Coluna de Persépolis — presente do Irã à cidade por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), realizada em 2012 — traz uma inscrição no mesmo sistema cuneiforme daquela que orna o Salão Assyrio. A diferença é que, nesse caso, há versões em português e inglês disponíveis ao lado, além de uma transcrição em persa moderno, igualmente inescrutável para a maioria.

“Essa é uma cópia fidedigna do texto que está na tumba do rei Dario I, esculpida na pedra. É um dos textos mais complexos que existem em persa antigo”, explica Treuk.

Inscrições em latim: mensagens do passado

Na babel carioca, há muitos outros exemplos de inscrições que se revelam apenas para iniciados. Boa parte está em latim. Uma das mais visíveis fica no nº 2.610 da Avenida Presidente Vargas, no Centro. Na fachada da antiga fábrica de gás — que em 1853 foi responsável por modernizar a iluminação pública do Rio — a inscrição “Ex Fumo Dare Lucem” é vista de longe, até de dentro dos ônibus e carros que atravessam a via diariamente. Muito vista, pouco compreendida. Trata-se de um verso extraído da Arte Poética, do romano Horácio (65-8 a.C.), o mesmo autor da expressão “carpe diem”, essa sim, de sentido bem mais difundido.

“A tradução da frase seria algo como ‘a luz a partir da fumaça’. Ou seja, fazer algo grandioso a partir de algo aparentemente pequeno. Não foi colocada ali por acaso. Ela representa justamente uma metáfora desse processo de mudança na iluminação da cidade na época”, explica Danilo Julião, autor da dissertação de mestrado “As inscrições latinas nos monumentos do Rio de Janeiro nos séculos XVIII e XIX”, na qual ele lista e analisa 21 inscrições.

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Fechado há tempos, o prédio da antiga fábrica mostra sinais externos do abandono. A letra M de “Fumo”, por exemplo, ameaça cair. Parece um W desgarrado do verso. De acordo com a Naturgy, responsável pelo edifício, o imóvel já não estava “vinculado à prestação do serviço público de distribuição de gás natural em 1997”, quando assumiu a concessão, mas que, “ainda assim, nos últimos anos, vem realizando obras emergenciais no local, a fim de manter seu estado de conservação”.

Inscrições e a história da cidade

No rol dos textos analisados por Danilo Julião, há algumas em instalações militares, como os antigos fortes da cidade, e muitos chafarizes, como o de Mestre Valentim, na Praça Quinze. Em comum, cada uma tem o viés de registrar a História e as formas como o poder e o povo se relacionavam. No Chafariz do Lagarto, bem perto do Sambódromo, por exemplo, a epígrafe “Sitienti populo senatus proeusit aquas anno MDCCLXXXVI” ressoa um certo populismo de então: “Ao povo sedento, o Senado deu águas em abundância, no ano de 1786”.

“Essas inscrições se comportam como um documento diferente dos que estamos acostumados a pesquisar, que são aqueles em papel. Ajudam a contar a história da cidade de outra maneira, lançando luz sobre determinados eventos, pessoas, esforços urbanísticos e mudanças que talvez os livros de história não contemplem”, reflete Julião.

Para Paulo Knauss, professor do Departamento de História da UFF e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB), a localização de boa parte das epígrafes históricas escritas em latim já demonstra como os registros mais antigos estão ligados aos centros de poder da época. “Como símbolos do poder, as inscrições mais antigas do Rio de Janeiro podem ser encontradas em edificações religiosas, militares e de governo. Provavelmente, a inscrição mais antiga da cidade seja a da lápide tumular de Estácio de Sá, considerado fundador da cidade, instalada em 1583 na antiga igreja de São Sebastião, que existia no alto do Morro do Castelo, local de fundação da cidade, e que foi transferida em 1922 para a atual igreja dos capuchinhos na Tijuca, dedicada ao santo padroeiro da cidade”, diz Knauss.

Outras línguas e mensagens

Na divisa entre Tijuca e Praça da Bandeira, a Associação Cultural Chinesa do Rio exibe — na fachada e no portal de entrada — ideogramas indecifráveis para a maior parte dos cariocas. Nenhum mistério por ali. Ju Bao, professora de chinês e de História chinesa, ensina que a inscrição traz o nome da entidade por extenso — que, no idioma original, é Associação Chinesa de Amizade do Rio — e a respectiva sigla.

No Centro, a fachada do Grande Templo Israelita do Rio atrai olhares. No alto se vê um colorido mosaico onde estão inscritos os dez mandamentos em hebraico. Não muito longe dali, na Escadaria Selarón, na Lapa, existem azulejos com o texto em árabe “Alá é vitorioso”. Em 2022, a Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio solicitou a mudança de lugar dos azulejos. Uma das peças quebrou e está sob guarda da Secretaria municipal de Conservação, sem “previsão para o restauro e a reinstalação”.

Na entrada principal do Cemitério São João Batista, em Botafogo, o texto no pórtico avisa em bom latim: “Revertere ad locum tuum”, algo como “retorne ao seu lugar”. Um pouco acima, o olho mais atento alcança outra epígrafe, mas em português mesmo. Ao contrário das demais, essa não pretende ser duradoura. É efêmera como uma piada. As letras gastas, mas bem desenhadas com tinta aerossol, vaticinam: “Quem é vivo sempre aparece”.