A Prefeitura de Porto Alegre deu início à demolição de 70 moradias no trecho 1 da Vila Dique, localizada na Zona Norte da capital gaúcha. A área foi severamente afetada pela enchente de 2024, que atingiu o Rio Grande do Sul. A vila, como o nome sugere, está situada em um dique, junto ao Arroio Teixeira, parte do sistema de proteção contra cheias da cidade. Ao longo de quase cinco décadas desde sua construção, a estrutura foi ocupada irregularmente em diversos pontos, comprometendo sua capacidade de proteção, conforme a prefeitura.
Reconstrução do dique após a catástrofe climática
Após a catástrofe climática que atingiu o estado há dois anos, o dique passará por um processo de reconstrução. As obras terão início após a conclusão da remoção das residências, da supressão vegetal e da retirada da rede de energia elétrica existente na área. O secretário municipal de Obras e Infraestrutura, André Flores, explicou a necessidade da intervenção: “O dique existe para proteger essa região da cidade. A construção desse dique ocorreu há mais de 40 anos e, naturalmente, vai compactando com o tempo. Então, ele já está muito mais baixo. Em alguns pontos, mais de um metro abaixo. Em um ponto, chegou a romper. Precisamos refazer o dique”.
Moradores retornaram e agora enfrentam a mudança
Mesmo após as enchentes, muitos moradores retornaram para suas casas no local. Das 70 famílias que vivem na Vila Dique, 53 já adquiriram imóveis por meio do programa Compra Assistida, do governo federal. Duas são atendidas pela modalidade Estadia Solidária, enquanto outras 15 foram realocadas para casas desocupadas na comunidade, onde permanecerão até o recebimento da moradia definitiva.
A recicladora Carina de Lima Silva, que mora há mais de 20 anos no local, expressou sua tristeza: “Moro aqui há mais de 20 anos. Ver minha casa sendo destruída foi uma tristeza. Eu criei minha filha aqui, ela tem 17 anos. Ela se criou aqui com tudo. O dique, para mim, era tudo. Agora estou morando em apartamento. Não é a mesma coisa. Adoro o dique. Não sou de Porto Alegre, com sete anos vim para cá. E sempre trabalhei com reciclagem”.
Amadeu Machado, de 68 anos, também enfrenta dificuldades para deixar a Vila Dique, principalmente por causa dos animais que cria. “Tenho um apartamento lá, eu ganhei, mas não consigo levar os bichos todos. Tenho bicho com amor e não posso perder meus animais. E eu estou pagando ainda lá, tem que pagar. Eu prefiro ir para baixo de uma árvore e não abandonar meus bichos do que ir para o apartamento. O apartamento não é para mim. Me criei na terra”, afirmou.
Animais na Vila Dique são vistoriados
O município informou que equipes do Gabinete da Causa Animal (GCA) e da Diretoria Geral de Fiscalização realizaram vistoria para verificar a situação dos animais na Vila Dique. Durante a ação, foram encontrados cerca de 10 animais, todos microchipados e acompanhados por seus responsáveis, que disseram estar preparados para o transporte dos pets durante a mudança.
Obras devem durar 15 dias
Os trabalhos devem durar cerca de 15 dias. Esta é a primeira das quatro fases previstas para a demolição das casas na Vila Dique. O escopo das intervenções também depende da definição sobre o projeto definitivo para os pôlderes, que funcionam como esponjas para absorver a água, onde atualmente são executadas obras imediatas de proteção contra cheias.
O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) propôs aos governos estadual e federal uma mudança na concepção do projeto para a região. Caso seja aprovada, a proposta incluirá a construção de uma grande bacia permanente de amortecimento e de duas novas Estações de Bombeamento de Águas Pluviais (Ebaps). Para a prefeitura, se aprovada a nova concepção, o dique deixaria de exercer a função principal de contenção das águas dos mananciais e passaria a atuar como uma estrutura auxiliar à drenagem urbana, permitindo sua implantação com menos robustez, sem perder a sua importância nas defesas da cidade.



